sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Medo

É além de mim precisar em você fisicamente o que me revolve, em algum ponto da mente, estalos sincrônicos, todo o meu corpo parado, viajando por tubos de sensações confortáveis onde tudo é construído a partir do princípio que dará certo. Mas recentemente as ilhas de flutuação sensível, muito além da massa humana cega, embora junto a ela, têm se feito mais e mais concretas, interligando-se em sequência lógica, toda a vegetação respirando em direção a um príncípio comum macrocósmico. Por debaixo das minhas unhas escorre uma vontade quase que inviolável, tão cristalina por sua pureza, constituinte básico de sua estruturação química.

Em toda uma posição imóvel, como numa fotografia, eu consigo agarrar o sentimento que se materializa, uma intuição, ele é o acúmulo de toda a minha história de desejos, toda ela materializada. Construído está o meu desejo eólico feito de ossos que se articulam sob músculos e banhos de canais incontáveis, massa gordurosa e recoberta de pele tão estética; ali está, com a respiração e vontades humanas. Os lábios, assim, movendo-se milimetricamente no ritmo de uma melodia evocadora de emoções sublimes. Cada tonalidade que se alimenta da luz presente revela matizes jamais alcançados de uma profusão multicolorida, envolta por uma fina conexão vital com o tato. Mas minhas mãos, ao aproximarem-se, retesam-se na mesma velocidade... Eu ainda estou como desde o início dos tempos, parado abaixo do sol, olhando para o calor por entre folhas de natureza virgem, clamando sem linguagem por algo que me explique o porquê de eu estar sentindo essa fome nunca saciada, essa fome que repudia alimentos e todos os insetos que me atravessam, eles são a natureza em sua forma mais bestial e completa.

O clímax da canção! A nota mais alta, a mais difícil, a que mais consegue percorrer o caminho entre sua origem imaterial e o príncipio de uma lágrima. Eu avisto um brilho de relance, mesmo que não tenha brilhado. E duvido. Mas não se nega um olho, não se nega o que o físico constata e afastando-me eu me torno cada vez mais conhecedor de mim mesmo, ciente de todas as minhas múltiplicidades e inconstâncias. Eu, quando da mão da Terra, em seus confins fervescentes, irrompi, tal verme arrebenta constituintes humanos, na superfície, alérgico aos raios solares, cerrei minha mão na terra fofa, amassando pequenas folhas de outono espalhadas aos milhares pelo mato verdejante e parcamente iluminado, coberto pela copa das densas árvores ao redor. O cheiro de limpidez abriu meus pulmões e pude distinguir muito vagamente que se tratava de um caminho, um lago, cachoeira discreta, e a vida pulsava naquele ambiente brilhante e multicolorido. Todas as minhas necessidades eram as necessidades ao redor, o saber era íntimo e incontestável, uma espiral de sentimentos afagava todo o meu corpo, acolhendo-me entre a normalidade de ser algo incompleto e sem culpa alguma, completamente limpo de todos os meus pensamentos, eu caminhei por anos sem me cansar.

Ao fundo, em meio ao que vi de mais belamente erguido, a casa que estivera lá há milênios, com a porta aberta e tudo em seu lugar. Como se houvesse passado apenas uma hora, tudo reconhecível e a saudade havia sido como contar cada gota de todos os oceanos. Descendo as escadas, uma palavra soa realmente como ela se configura, nada havia de preocupação e nem desconfiança, tudo estava em seu lugar, mesmo que não houvesse um lugar. Eu nunca saberia se esse seria o destino final, mas uma plenitude, ou a inauguração de uma sensação nos eleva e tudo se acalma. Havia não-sido inúmeras vezes, mas eu conservava em algum canto uma certa inocência pueril de que há o certo. E não importava mais acreditar, pois tudo acabava da mesma forma e a sensação era sempre a mesma e encarada diversas vezes como a última vez, como a melhora por vir. De minha boca, infinitas contradições assolam apenas meus ouvidos e meu corpo caminha contorcido a mando de minha auto-defesa para longe demais do que me maltrataria com delicadeza. Além de todo o mal que eu sempre causei a mim, parece que nunca se desiste de provocar o pior sem piedade. De mãos alheias de si, o nevoeiro de todo um teatro que se passa na minha mente, o sentido intrincado em sua própria linha do tempo, eu me afogo em conclusões que irrevogavelmente me afastam de tudo, mas desta vez eu não tenho tanta certeza ainda. De qualquer forma, algo foi estranhamente composto e a raiva se ergue dentro de mim como pretexto para eu ser forte uma vez. Tudo posto, por que, então, se é, foi anteriormente minimamente sugerido? Eu estou confuso dentro de mim ao ponto de fazer o que sempre faço. E acho a solução a cada vez que viro uma rua, a solução está espalhada, mas jamais a alcancei! Onde era para eu estar agora e onde estou?

Fisicamente começo a existir e a dor é excruciante. Tudo o que me destaca dessa vil massa ambulante pode estar prestes a apoderar-se de mim com intensa simplicidade. Meu distanciamento aprisiona faltas em nome de uma estagnação contemplativa e reflexiva. Mil metros acima do que se julga satisfatório, a observação causa repulsa e ao mesmo tempo medo. Medo de um dia ser irreconhecível. Tudo graças a não poder contar, não poder crer. Uma infinidade de obstáculos de ar pesado.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lacuna

Tenho sentido a falta do ar, meus pulmões buscam mais de mim para assegurarem-se vivos. Pelo minuto no qual estive ausente, por esquecer a parte que me cabe no todo cósmico, tenho pagado por dias esse deslize frente aos degraus cada vez mais íngremes. A vontade de reescalar não levaria à salvação, como parece, como é tão impregnado em mim esse sentimento de correr pelo que já me é familiar. Um braço estendido, timidamente, oferecendo que tudo seja o que deveria obviamente ser. E o nada no que tudo se tornou? E as crenças que se desfazem por completo? E meus sentimentos tão verdadeiros, tudo tão sincero! Por que sempre tudo parte de mim? Eu não consigo sentir nada além de amor, um amor profundo e enraizado fluindo de cada hemácia, seu rastro derramado nas paredes dos vasos, vazando pelos órgãos, bombeado por todo o organismo, pulsante, integrando moléculas de DNA, como se não houvesse sido programado. Esse ataque independe de comandos cerebrais, está intrincado ao próprio funcionamento místico dessa máquina orgânica, um corpo a flor da pele, trabalhando para sustentar-se, ainda que espetado em vários sentidos por espinhos microscópicos. A cada movimento, o músculo retraído comprime em suas fibras essas esferas afiadas, promovendo múltiplos cortes, a sensação pungente e desconhecida, cada movimento é interpretado como um passo à concepção idealizada da plena felicidade. É auto-defesa.

Tão próximo estava de ser o que finalmente... E tudo se encaixava, obrigatoriamente deveria dar um passo em falso e não saber mais como caminhar. Como se vivesse em pleno espaço, cercado por constelações e milhões de orbes espaciais, corpos celestes e seres que nunca souberam o que seria uma raça humana. Nesse vazio recheado de possibilidades, na ausência de gravidade, somos livres para flutuarmos como pensamentos. Somos pensamentos, meros instantes energéticos libertos de concepções e contexto, libertos de olhares e sílabas, os gestos, não impedidos, são os mais sinceros e falam todas as línguas. E se todas as estrelas forem, na verdade, algo diferente de estrelas? E se, fora daqui, tudo for diferente do que é aqui? Caso estivéssemos inconscientes seria tudo diferente? Num sonho, num delírio, num êxtase, num coma, nos primeiros instantes antes da morte... qual seria? As mãos se unem finalmente nesse espaço-tempo imutável, que rebaixa tudo com sua magnânima infinidade e enterra em buracos negros toda uma tradição de opiniões e comportamentos. Só nós importamos e o que flui é mágico, o que estava sempre por aqui é o normal e o normal é extraordinário. Eu sempre busquei mais de mim para ser mais para todos, quando ninguém nunca quis mais, ninguém nunca soube a diferença.

Do centro da Terra emanam todos os impulsos cataclismáticos, anunciando, a cada rachadura vagarosa da crosta, a necessidade de emanciparmos nossos sentimentos a outro nível de desprendimento. Antes concentrados em nos desfazermos, amarrando os fios de nossos impulsos cuidadosamente para que não doesse tanto, agora forço-me a consumir meu tempo buscando cada nó para que ele seja desfeito. Olhares de reprovação ainda não se conscientizaram sobre a urgência do planeta em modificar-se, em limpar-se de todo o supérfluo. Sinto no interior de meus ossos o regozijo por estar caminhando sobre essas folhas secas feitas de pele humana já envelhecida e quebradiça. Meus passos as pulverizam em direção a uma nova existência, onde a não gravidade é aqui, onde toda a comunhão de corpos é possível sem que esteja distante. O amontoar de corpos sadios, em transe fascinante por outro corpo vazio, uma união universal indistinta de todos os seres que se se cortaram, arrancando seu sangue e filtrando todo um corpo, bebendo em homenagem a uma renovação hiperbólica. Preciso de tudo além, uma reestruturação excelsa, o amor ocupando cada átomo que me estrutura, que me traduz em matéria, cada átomo repleto das ínfimas partículas plasmáticas constituintes do sentimento. Meu corpo exige mais de mim, mais comunhão, mais vida, mais do ar que respiro.

A boca é por onde entrevejo tudo o que posso conhecer de mais profundo sobre um corpo em seu sentido mais primitivo. Por entre os dentes e sobre a língua estão os primordiais elementos, os dados mais humanos, toda a voracidade dos ancestrais transmutados em apenas um corpo novo. A dor que sinto é ausência pura, o nada se fazendo sentir. O buraco negro da existência, um nada que a tudo consome e tudo engloba. Por vezes não me lembro mais o que era de início e no que me tornei, tantas foram as transformações. Eu só queria muito pouca coisa, na verdade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ao Final de uma Etapa

Andava com a cabeça no mesmo lugar, por ruas a fio, mecanicamente, trocando palavras consigo para evitar o tédio da distância percorrida múltiplas vezes. Apesar da invigilância aparente, notava cada rosto que atravessasse seu caminho, reparando o canto do olho de cada pessoa, a fonte de todos os seus sentimentos, a fonte da realidade. Movia-se em uma velocidade normal, o fim do dia não reservava nenhuma surpresa. Era dormir e acordar para recomeçar nessa escada horizontal e enrolada no próprio eixo derrubado. A caminhada, a caminhada pela mesma distância percorrida múltiplas vezes. Seu canto do olho mostrava o que era real em si? Mas ninguém reparava.

A observação não era, porém, gratuita. Buscava algo em alguém que não existia. Nenhuma das duas coisas existiam. Apenas a ausência. Quando acordara na pele, não soubera o que fazer dessas sensações que se assoberbavam continuamente e sem explicação. Não teve escolha, a não ser rogar a um Deus que se prontificasse a responder seus anseios mais íntimos, posto que nenhum ser humano o seria capaz. Mas nunca soube entender a resposta, supondo que ela havia sido enviada.

Mas ao se afogar no primeiro pingo d'água, sentiu todo o seu corpo transportar-se para absorver aquela gota e mais cada uma que se aproximava, devagar, depois rápido. As moléculas vindas do céu se misturando com as suas eram como um sopro de vida da ponta da língua de Deus para todo um humano que não tinha mais a certeza de haver sido realmente um dia diferente de um bando de órgãos involuntários. Elevando o rosto, a pouca luz ainda ferindo os olhos acostumados a dormir, recebe, pela boca, limpando tudo por dentro, a água da chuva, impensada, apenas dos recônditos jamais alcançados por mãos humanas, uma floresta virgem.

Enquanto caminha em suspensão, o amor que brota da ponta dos dedos evola-se para fazer do mundo um lugar um pouco melhor e derrete qualquer palavra viscosa que, naquele momento poderia ser cogitada. Apesar de palavras imundas, as ações cristalinas e sinceras somam-se por cima delas e as inutilizam. Prefiro palavras hediondas a ações dissimuladas. O amor invisível é o mais precioso e quente. Ele queima todo um coração que absorve essa água, pulsando a essência da vida por artérias cansadas de serem subestimadas. O calor que invade todo o corpo, desesperado por transferir esse calor, ansioso por achar o recipiente de si. Um corpo que caminha sobre si dia após dia, vencendo-se e chorando por razões múltiplas, sempre achando algo que o faça mais necessitado desse calor que é inexistente por si só.

O desejo de união pulsa, resguardado no fundo de mitocôndrias, um elo partido, dos quais fragmentos se espalham por cada organela, buscando uma a outra, introjeta no inconsciente do corpo a falta inexplicável que suga o ar dos alvéolos. Células instintivas, incompletas desde a criação dos tempos, em seu DNA está espiralada a ausência que é a constituição do ser humano. Mas como se me fosse íntimo, percebo uma leve alteração química quando estou na presença do que, ainda que seja mera representação, remeta-me a completude. O esforço por livrar-me da impressão equipara-se a exigir que o fígado abandone sua função exócrina, em meu corpo firmo tudo o que me suspende quando não suporto mais viver entre meus iguais.

Mas, com a mão fechada, guardando riscos de água, chega ao final da caminhada não antes de atravessar a rua. Um pequeno olhar de precaução para ver, em sua direção, o ônibus que ignorava qualquer exceção. Em sua frente, contrastando com a escuridão do final do dia, muito claramente, sua frente assemelhava-se ao que fosse uma passagem para onde a compreensão é absoluta. Irresistíveis milhões de impulsos são gerados em milésimos de segundo quase que automaticamente movendo o corpo em direção a essa galeria de auto-satisfação. O cansaço se apoderando das pernas rapidamente, turvando os sentidos mais externos, uma euforia quimicamente arquitetada para isolar-se de qualquer medo consciente e planejamento quanto ao futuro. Apenas se busca sanar a dor mais pungente, mais verdadeiramente enraizada.

Contudo, o portal já havia passado e se fechado. Era seguro completar a caminhada como em qualquer dia. E, antes que pudesse concluir seus pensamentos, encontrou.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ímpeto

Difícil não se importar com coisas que não são realmente importantes. Pouca coisa mudou no exterior e a cada dia o tempo passa e tudo igual... Eu sinto como se qualquer esforço interno não valesse de nada, que fosse frágil e pronto a ruir com um assopro. A troco de que foi toda a mudança se ela não é palpável? A necessidade do concreto novamente é um beco sem saída.

A troco de que venho modificando cada molécula? Se nada disso me dará o que preciso? Eu nunca questionei a necessidade de mudar até agora. Apenas tive isso por meta. Mas e se não for? Há coisas que nascem agarradas em nós que nunca se desprenderão. E todas elas podem ter razões para serem como são, mesmo que não compreendamos bem tudo isso. Colocar uma venda e seguir em frente não parece o mais adequado a fazer e eu estou quase me encerrando novamente sem nem ao menos ter completado o processo. O que falta? Ainda?

E é errado sentir o ódio vazando a cada palavra, cada gesto injusto e o mundo se vira contra mim num jogo de sempre me lembrar onde estou e o porquê de nada ter sido acertado. Esse ódio motiva o lado oposto e em todos eu vejo o erro, por todos os cantos eu vejo o quão ínfimos e patéticos são esses seres medíocres que rastejam por suas existências rasas e mergulhadas em futilidade e alienação. Todos me provocam o mais repugnante nojo por estarem tão abaixo e ao mesmo tempo se colocarem tão acima. Que empáfia! De tanto que essa massa putrefata empurra vidas insignificantes através dos tempos, se multiplicando em mais e mais abortos incontidos vejo-me hoje no extremo de minhas forças, impossível conter esse infinito de erros.

Um fiapo translúcido em meio a toda essa sujeira, próximo a ela, mas, de certa forma, nunca mesclado. Ele flutua, tenho-o em minhas mãos às vezes, mas nunca definitivamente. Essa sensação tão certa...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Límpida Identificação

Tenho pensado muito sobre relações. E estou com medo de achar que no fundo nenhuma delas seja autêntica. Claro que isso depende do que se considera como autêntico, mas deixe que eu me faça entender, o cerne do que imagino.

Quanto a identificar-se com alguém, isso pode ter vários níveis, tudo bem. O que promove essa ligação não é possível explicar e nem quero, embora me provoque curiosidade, mas, sem que eu me desvirtue do propósito, quero me centrar em um fato que percebi. Muito improvável seria que alguém fosse começar alguma relação mais profunda com alguém por quem a atração se limitasse ao âmbito abstrato. Sendo assim, não somos livres para amarmos – e consumar esse amor – com quem quer que desejemos e eu não estou falando apenas de gêneros, mas de uma gama de traços conectados à aparência física.

Esse desejar ao qual me referi obviamente é volátil. Se você deseja, você não tem por que não tornar palpável, mas o que eu queria dizer é que não se é livre dentro desse “desejar” porque você está proibido por si mesmo de cogitar um número N de possibilidades, dado a sua condição físico-psicológica. Ou seja, esse desejo é condicionado.

Dessa maneira, como não se faz real envolver-se com alguém repugnante a seus olhos, mas que o cativasse de outra maneira, onde está a sinceridade de apaixonar-se? De que vale amar se esse amor está entrelaçado a um prisma de futilidades? De que engrandece o sexo se ele só pode estar conectado com o que primeiramente provocou êxtase ao olhar?

E o que dizem sobre o fato de que todos encontram alguém, ainda que careçam de beleza? Bem, sobre isso só posso alegar a relatividade da beleza, mas até ela tem seu consenso, para o bem ou para o mal. O fato é que assistir a isso causa a ojeriza aos olhos mais sensíveis e sarcasmo aos mais frios. A indiferença não cabe neste âmbito. Toda a deformidade aparente, seja ela para qual direção for é, no mínimo, risível.

Tornado explícito o quão nos faz falta, se a buscamos e só satisfazemo-nos ao encontrá-la e ela precisa a nós estar atrelada para todo o sempre, pois é, por excelência, a lei da vida, - e vou explicar isso também – como confiar no amor? O amor verdadeiro, nem ele é imparcial. Por quê? Por que somos humanos? A ausência do sublime, então, é maior do que podemos findá-la? Eu não confio no que posso vir a sentir, se assim for e se assim não for, por mim, tenho certeza que nunca será, jamais, em hipótese alguma.

Digo que a beleza seja a lei, porque basta olhar ao redor. Mesmo dentre o lodo mais ignominioso que o ser humano expele, consegue uma rosa desabrochar, tão piegas quanto maravilhosa. E disso não escapam os animais, as outras plantas, as águas, o sol e as chuvas. Tudo que é natural é belo e vistoso, e o que não for habita em beleza. Não há como ir contra o que nos integra de uma forma que não sabemos explicar. Mas podemos nos olhar e nos sentirmos diferentes dessa lei maior. Onde está, então, a real beleza? Como procurá-la? Como precisar dela e não da óbvia?

Por que sempre é dificílimo precisarmos do que seria bom para nós? As palavras fluíram tais quais elas são. Eu recentemente tropecei em mim mesmo novamente e me deparei com algo claro, mas ainda inalcançável. Algo de que eu preciso, mas não neste momento. Do que chamar esse sentimento? Quando queremos algo agora, mas sabemos que agora não seria bom, mesmo isso sendo bom em si mesmo?  

domingo, 23 de outubro de 2011

Epifania

Impossível preencher o futuro sem dispensar um pouco do passado que tenho na boca. Eu já sei disso. Mas qualquer fino segundo que tenha passado a ser passado é saboreado com muito mais gosto pelos mínimos botões gustativos espalhados pela língua envolta em areia. A areia é o que resta do tempo perdido, já desmanchado em mil fragmentos, mas sólidos, ainda me sufocando. O ar passa com dificuldade, mas lamber, atravessando arduamente a parede arenosa, meus dentes e minha língua em contato com a pele, sentindo o gosto do passado. É o passado feito vivo, É a transformação que eu sempre quis.

Como se não me bastasse você enfiar suas artérias por dentro da minha pele, rasgando o tecido e se enrolando em meus vasos sanguíneos, tornando-me uma parte infinitamente dependente de seu corpo, você ainda consegue esse milagre. Por que você é assim? Por que quando eu estou suspenso, respirando a brisa mais cálida, ou me afogando em meu próprio pântano particular, você sempre está lá, sempre com sua mão gigante, mesmo que não queira estar, mas você se força a me enxergar, se força a ser a pior pessoa do universo na sua concepção só para estar um segundo que seja perto da minha dor. Você sente a minha dor mais do que eu mesmo. Deixa eu senti-la sozinho dessa vez.

E quando eu sinto meu sangue fluir com fúria, meu corpo incha em infinitesimais proporções e eu me sinto melhor do que eu sou, por você, e eu consigo respirar com o ar que você debruça na minha boca aberta com a sua presença pulsante, devolvendo o peristaltismo para meus órgãos cansados e eles são novamente comigo uma máquina perfeita, movimentando-se toda em conjunto, seguindo o seu ritmo, em sincronia perfeita, perfilando meus sentidos. O passado que eu tanto almejo, você o traz em você agora e você é o que eu mais desejo. Tudo em você me é familiar, nossos átomos em uníssono, de todos os seus poros, meu suor vaza discreto como sendo você que o sente. Estou com frio, aqui onde estou é inacreditavelmente frio.

E eu sou como o prédio mais alto da cidade. Eu não sou menos que o sol que ilumina a tudo onde se sabe e não sabe. Minha mente atravessa não apenas o que eu conheço, mas também o que ainda vou conhecer e eu não esqueço um segundo que se passou em minha vida milenar. Meu rosto não conhece a dor e mesmo assim eu me abaixo, me curvo, me desapareço debaixo de você, engolido por tudo o que você me faz sentir quando está do outro lado do mundo, vivendo o que eu sempre quis como eu sempre quis. Eu sempre quis o sofrimento, eu sempre quis a dor de querer algo que nunca teria. E isso foi a todo o custo.

Mas morrendo, me desfazendo de tudo o que está enroscado em mim, meu corpo todo doente de você, eu percebo que é a forma mais natural de matar algo feito para não morrer. Basta que se assopre e ele ressuscita, e tudo vira o que era antes. O passado feito presente. Meu sonho viraria realidade e eu teria tudo. Eu seria grande e tudo o que se pode ser! Minha vida em romance e filme nacional. E os dias são estranhamente diferentes de tudo o que eu já vivi, a liberdade me oprime como eu nunca imaginei que fosse. E você ainda está aqui, carregando todo o meu peso por mim. Mas o mais que pesa agora dói demais, eu aprendi a levar tudo sozinho.

É como entender o amor. Eu. Eu amo. Eu amo você. Eu te amo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Iluminação

Nas vezes em que te vejo, eu me despreparo de qualquer coisa passível de adjetivação. Por pequenos descuidos, então, nos encontramos um pouco mais além, mas nada condenável. Nós somos o que se procura como objetivo de vida sem saber de toda a dor da responsabilidade. Minha mente liberta, sem qualquer espectro de qualquer lembrança, mas, estranhamente, basta eu sentir, ao longe, bem no imperceptivelmente longínquo o ar que sopra quando a navalha corta, tão rápida, para que eu esmoreça por dentro e queira voltar à minha natureza. Mas você me impediu antes e eu nunca vou além de mim. Mas você não sabe disso. E eu não sei provar para você que não podemos mais brincar com o tempo. O tempo é meu maior inimigo e eu não aprendi a entendê-lo.

Entrevejo na singeleza de um gesto uma força extraordinária que clama por uma lufada de qualquer sentimento mais sincero e puro. A pele já calejada e ralada que implora inconsciente por um toque mais macio que a lembre que a vida não está intrinsecamente podre, intrincada em sequências de desastres involuntários. Quando você vai perceber que tem nas mãos as chagas causadas por lâminas que saem de seus próprios dedos? Eu sou uma rocha, deixe que eu fique aqui e não sinta nada por você, deixe que eu fique aqui e seja a mesma coisa que o ar que não se respira, deixe que eu seja uma rocha vulcânica já resfriada, meio enfiada na terra, um pedaço para fora, onde só a chuva consegue alcançar. E todas as minhas certezas são represadas dentro dos cristais que tenho por dentro, um pouco frágeis, tentando eclodir. Mas você me impediu antes e eu nunca vou além de mim.

Eu amo a chuva. Sempre imagino, quando vejo uma janela pelo lado de fora, como deve ser o interior daquela casa e como deve ser olhar para essa janela pelo lado de dentro num dia chuvoso, assim, de tarde. Isso me dá uma sensação tão boa. O barulho da chuva e você, um pouco como que ,inesperadamente no meio de um sem princípio, estivesse sem qualquer equipamento, sem qualquer marca, estivesse sem qualquer lembrança. Apenas o que você é e o que seu corpo é de verdade. Só isso e a ausência dos... As palavras me traem neste momento e eu sou pouco para entornar meu sentimento mais autêntico. Eu quero a infalibilidade das palavras. A ausência dos percalços que nos transmutaram as opiniões e crenças, desvirtuando-nos, talvez, de nosso destino já traçado por cartas e figuras inexplicáveis. Apenas você. É isso. Você. E assim poderia germinar o que eu apenas sei. Eu não me afogo em desespero, eu não falo nunca o que desejo e nem meu corpo se desvela segundo meus sentimentos mais profundos. Eu sou uma torpe superposição de impulsos paradoxais, a maior coragem do mundo encerrada num corpo tetraplégico. Eu observo a sua simplicidade com um sorriso e guardo um pedaço dela entre os dedos, desejando que você me dê a chance de arrancar outros mais.

Quando você falseia o que mais deseja, eu ambiciono tachar o medo que você cultiva de imaturidade. Julgando-me exacerbadamente forte, debalde caem por terra meus planos de auto-libertação. Do que eu preciso me libertar? Da certeza de que preciso me libertar? E começar pelo ponto mais simples? A aceitação. Eu aceitei você em todos os seus recônditos após árduo processo interno ainda infindo. Por que agora me sinto falho ao ter aceitado? Era a luta que eu devia ter travado? Eu quase travei... Eu cheguei a desferir poucos golpes. Mas você me impediu e eu jamais consegui ir além de mim.

Eu sei de algo perfeito. Eu sei de algo que eu faria perfeitamente. Eu precisava de um elemento e ele está aqui, ele pulsa, ele anseia, ele é o que eu havia esquecido em alguma intersecção na linha do tempo. Mas ele está aqui. E me faz sentir extraordinário. Apesar de tudo. Apesar de tudo. Mesmo sem perceber, mesmo sem tentar, mesmo com tudo o que me arranca, eu me superei. Dei um passo além de mim.

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Foi tão difícil escrever isso. E de modo algum é o que deve parecer. Eu não sei o que parece, pra mim é o que é, afinal de contas. É como se eu quisesse ter escrito isso ontem, mas não consegui. Eu não estava com o sentimento amadurecido. Parece idiota falar de 1 dia de amadurecimento. Mas não é isso, são coisas. Eu vejo tudo com outros olhos, olhos diferentes do que parece para todo mundo. Eu tenho certeza que eu chego em casa depois de uma saída e todo aquele dia tem para mim uma impressão completamente diferente da que teve para todo mundo. Pois é, depois de algum tempo e várias saídas, todas as impressões formam alguma coisa. Eu preciso dormir.