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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ao Encontro pela Dissolução do Passado

Parece que nunca estou realmente sentindo algo independente do que senti naquela ocasião em que vivia suspenso mesmo quando não queria. Extirpar a fonte de amor sincero de todos os meus dias abate-se a cada minuto na forma de ausência palpável, lembrando-me que há alguém perambulando e vivendo normalmente carregando em si tanto potencial de vida, tanta vontade de ser feliz, tanto amor. É impossível que eu não ache ser o descanso para o vazio que formara-se centênios atrás e que, na verdade, o erro também tenha sido meu de não ter conseguido identificar momentos e formas de proceder, não há como plantar sementes na água. Ou não me foi explicado como? Havendo, certamente, algo que eu não consegui aprender para poder transpor essa barreira que se impôs entre mim e o desejo do que eu seria após conquistar o que soa impossível. Seria, então, o aprendizado exatamente conseguir ser esse produto "final" sem que variáveis (in)esperadas deem início ao processo? Um processo que vai desde suplantar o eu morto até compreender o nascimento de uma nova forma de vida. Mas, conviver o novo e o antigo soa, de fato, como sendo o real desafio.

E se eu estava enganado? E se tudo não faz parte de um plano montado em tempos imemoriais para que eu chegue ao ponto onde estou neste exato momento e faça algo com ele para que eu aprenda a lição da vida, para que eu desvende o mistério de ser eu? Por que urge em mim a necessidade de desvendar mistério algum? Por que eu sou um desconhecido para mim? Por que eu não posso me prever e como eu espero que façam exatamente o que eu espero que façam, uma vez que não se pode adiantar meus pensamentos? eles jorram na velocidade da luz e me escapam, sendo que mal lembro ideias que tive ao longo de horas anteriores e, quando escrevo, as palavras são outras, talvez as mesmas, mas não sei dizer, porque eu escrevendo já sou outro do que quando pensava em escrever há uma hora atrás. A agonia de não conseguir acorrentar-me para dissecar-me é uma vertigem que faz com que eu queira adormecer. Quando acordo, a sensação não é mais a de um corpo esburacado, eu saio na rua e o sol é inspirador com sua simplicidade óbvia e eu precisei ajoelhar-me e entender a humildade para dissolver a irritabilidade que se apoderava de mim sempre que eu era tocado por simplicidades extremas.

A leveza das coisas simples e das pessoas infantilizadas eram como as pedras que atiramos na superfície dos lagos, intuitos estéticos e despretensiosos faziam com que eu caminhasse deveras atento, focado na tentativa de saber o que cada pessoa pensa, mesmo que elas mesmas não percebam seus pensamentos. É difícil decodificar todas as opiniões que brotam ao mero toque do olhar. O corpo é tão displicente com a mente que, para minha segurança, ando de olhos fechados por ruas conhecidas, tateando o destino a percorrer, lutando até a morte contra o ímpeto destrutivo de abrir os olhos, a dor que se origina do conflito de ideias e sobe até a extremidade interna do crânio como que espremendo o cérebro para que ele não atinja a verdade que o liquefaria em segundos. O corpo em sua sabedoria instintiva autodefende-se de mim que não sei medir esforços. Eu pareço querer a eternidade, pareço estar insatisfeito com minhas conquistas e com meus fracassos, pareço não ter a paciência de aprender antes que possa ensinar e o mundo em minhas mãos se une ao meu ego na tentativa de superar meus sofrimentos mais mesquinhos, como se eu governasse o bem-estar do mundo e soubesse como aplacar suas dores mais indigentes.

Que frustração esmagadora pode advir do fato de descobrir que, na verdade, pode tudo ser simples demais e todas as incompreensões nada mais seriam do que a pressa para entender algo que está fora do alcance de qualquer entendimento. Um gato não busca conhecer a origem de seus instintos carnívoros, ele apenas o aceita e faz dele sua motivação para sobreviver e, uma vez que se explique a ele de onde vem o instinto, ele apenas continuaria sendo o mesmo gato, a vida o mataria ao final dos tempos e ele haveria amado por igualmente amar a si próprio. Mas para mim, é como se a lacuna pela falta da verdade transpassasse um corpo e de certa forma tolhesse seu livre-arbítrio, orientando-o na direção do que lhe é inconsciente. O mover de vida que me falta é a falta da qual prometo a cada dia livrar-me ainda que desconheça os mecanismos que fazem a engrenagem do movimento despertar. Sinto enferrujados os membros já transbordando de sede de amor e vida, o calor que se acumula em volta, apenas esperando que eu estique o braço para que ele me tome por completo. E por que hesito? Por que ainda abraço-me a meu vazio como se expressasse, ele, mais de mim do que mesmo tenho receio de demonstrar?

Ao que me correm pelas paredes celulares, informações de sepulcros abertos em soterramento abissal, secas cavernas subaquáticas jamais tocadas por qualquer conhecimento racional, onde jazem os microorganismos precursores do mundo, onde a mãos de Deus souberam fechar-se em concha, eu me injeto de um sopro de vida e abraço o que não sei como se fundou em matéria reconhecível. É o desconhecido que me convida a renovar-me pelo amor do que não sei definir, um amor intrínseco ao meu cuidar de mim mesmo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Tratado de Sepultamento do Passado

É universal, pois que não parte de apenas um foco, o desprezo que cresce e se alastra por minhas opiniões acerca da massa ignorante que ambula por ruas amontoadas de estagnação e indiferença, conceitos arcaicos e mediocridade, leviandade e pequenez. O ser humano é traduzido em apenas nojo, a vergonha que se abate por precisar estar conectado a esse bando de lixo obtuso, seres dispensáveis de uma complexidade microscópica, apenas contentes em enxergar a partir de suas próprias visões deturpadas pelo egoísmo. Onde está qualquer amor por parte desses ignóbeis abortos da natureza? Onde está qualquer consideração? Onde está o sentido humano atribuído a essa palavra positivamente? Apenas vejo um mar de células dissociadas, pulsando por si próprias em nome de vícios e prazeres momentâneos, falta de interesse em construir e prazer em destruir, em condenar, em sabotar, em provocar a dor. Anseio que se aniquilem em seus próprios erros e passem a deixar que seja, o planeta, enfim, um ambiente de paz e harmonia. A vida não lhes cabe.

A dor da frustração por falhar em entender o porquê da inferioridade estúpida desses seres mal-feitos cresce em forma de agonia por pertencer a essa natureza fadada a autodestruição. Que sofram por seus erros "em busca da felicidade", porém, mais do que isso, buscam-na partindo apenas da própria e mal sabem, imbecis que são, ser impossível atingir a plena felicidade sem que ao outro façam o bem antes. Tantas foram as chances dadas por atos de bondade de abnegação, de puro amor e compreensão, de afabilidade e mansidão, de desejo de união e perpetuar a vida para que, através deles, a felicidade pudesse dar lugar a essas crises de sofrimento e instaurar-se-ia o divino prazer de poder descansar. Em vez disso, porém, ignorando a preciosidade de um diamante a vista, prefere-se retornar ao ciclo de erros e choro. Não me é possível entender! O que tudo isso quer dizer? Por que o destino não se cumpre? Por que o erro é escolhido? Quando sempre achei-me assoberbado por fatalidades, neste âmbito o sofrimento é menor pois atribuiria ao acaso a origem do meu sangramento. Mas quando é voluntário... Eu não consegui digerir essa destruição do ideal por mim cultivado durante tantos anos. O que fazer de agora em diante? Por vezes quero tanto seguir em frente e outras tudo me parece tão sem sentido.

Eu vos odeio e amaldiçoo, posto que sois, em verdade, alegoria de um conjunto humano. E descanso, pelo fato de saber-me detentor do esforço maior na direção do progresso e, garanto-vos que, enquanto afundais na lama de vossas escolhas erradas, subo eu degraus de ascensão à felicidade, construída lado a lado com o amor que se deixa brotar, o amor que se constrói na naturalidade e na calma, o amor verdadeiro e profundo, independente do destino e das palavras ditas. Eu não fujo ao compromisso, eu sou tudo de mim e, apesar da infelicidade que perdura em meu coração, estou consciente de que minhas mãos lutaram para que se honrasse um compromisso com a purificação. Ao passo que fugiram, todos, a esse compromisso, meramente lamento e que minha dor se multiplique em vós setenta vezes sete. Pois minha consciência adormece pacificamente e os tormentos que abater-se-ão sobre vossas existências miseráveis apenas se iniciam.

Decerto que transformou-se em entrave todo o sentimento que alimentei por meros minúsculos amalgamados de falhas, uma vez que a razão esforça-se em vão para entender a origem do querer bem aos outros. Faz-se imperiosamente necessário, para que o progresso se conclua, enterrar esses vírus em arcas lacradas, acorrentadas e sepultadas nos confins de um passado remoto o qual a memória apenas vislumbra. Nesse sentido, qualquer resquício de carinho a esses patéticos, torpes indivíduos dedicado ambiciona ser extirpado de mim, de forma que deixe de alimentar uma sabotagem de mim mesmo, guiando-me em direção ao novo, ao maduro, ao que apenas transborda momentos felizes e, se cravados por tribulações, um desejo maior de que essa felicidade se perpetue resolverá qualquer conflito em nome apenas do bem. Um suspiro de alívio, sementes de uma vida realizada e produtiva, medos e cortes profundos cuidadosamente curados e a torrente de mágoas sublimada. Todo o pranto terá valido a pena, todos os desencontros terão o seu sentido costurado por haver-se chegado aonde chegarei: o resultado de tudo isso que apenas configura-se em um concreto novo começo.

Debruçando-me sobre os anos antes deste, como transmutei-me em outra pessoa e observo, afastado, como simplesmente sois a mesma porcaria de quando dissemos, todos nós, as últimas palavras uns para os outros. Certo dia, será consolidada, finalmente, a sensação de haver perdido quase nada por terem dilacerado um coração gentil que pulsava por vós, que, de certa forma, ligou-se, tão profundamente aos vossos que, ainda que fisicamente a distância seja essencial, desgarrar-se é trabalho diário e doloroso, enquanto seguis vossas vidas alegremente, ausentes de vós mesmos, cercados por vossos vilipêndios autoprovocados. Ofereci-vos alívio, sois a personificação da autopiedade, a exegese do vil. Ao que eu entenda o quão ínfimo sois, libertar-me-ei e pronto estarei para abraçar com amor novamente.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Desterro da Covardia

O intento fora grudar ao meu corpo o que contivesse apenas lascas de vida, como uma vacina. Qual não foi minha surpresa ao retesar-me de dor pelo desenvolvimento silencioso dos espinhos da velha besta ilusória, fonte de redobradas expiações, como o assoalho envelhecido ainda roído por cupins apenas cumprindo uma necessidade vital. Não eximindo a vil criatura de seus atos levianos, quando enrosca-se por entre as frestas de seus hospedeiros a retirar-lhes o bálsamo de vida, injetando-o em seu próprio corpo agora já raquítico pela prévia morte - um renascimento custou-lhe esforços magníficos. Jamais hei de poupá-la, porém é-lhe intrínseco o comportamento parasitário e debalde acreditei estar enganado, como se houvesse tudo não passado de confusão mental construída por uma visão deturpada pelos canais prismáticos pelos quais a enxerguei. Mas nada ali de errado atribuir-se-á a mim, posto que da besta parte o acinte enevoado de canduras e dóceis discursos.

Rasga-se minha pele com o avançar dos ferrões, caminhando livremente por meus vasos sanguíneos, costurando-me ao centro nervoso do pária que, aparentemente por escolha própria, abrigo, protegendo o punhal que me dilacera, amando o garrote que lentamente faz-me esvair-me. Todo o antigo conhecimento e perfeita catalogação do espécime agora me soam frívolos, como uma sensação longínqua e infantil. Centrado, agora, em um momento pós-guerra, confio-me plenamente capaz de sensatez incontestável. Debruço-me ao incerto, contemplando minha dor e agonia e pincelando meu futuro de acordo com as exegeses do que ainda não li, vulto sacro que se decalca com a imponência de um destino inexorável barra-me o pensamento racional por mim tão enlevado. Tudo não passa, ao fim, de artimanhas da besta covarde em tornar-me uma marionete de seus caprichos, usando-me como lodo que ingere para satisfazer seu insaciável corpo em regeneração. Ao degolar-me, ante minha súplica por findar o martírio, a via crúcis encerrar-se-ia com meu corpo sendo incorporado ao ser ignóbil, como uma célula desprovida de auto-estima, apenas executando suas funções primordiais apaticamente, ausente de si.

Traçado estava o mesmo caminho de outrora, mesmo previsões de um futuro abjeto passaram-me pela mente... Quando interpelado fui por uma turba de inefáveis experiências, todas concentradas em momentos que, amalgamados, foram capaz de suplantar mais de um ano corrente de tribulações e perfídias. A vibração que elevou-me ao nirvana de mim mesmo alicerçou o tardio achincalho desta besta patética e, em realidade, pobre em seus sortilégios. A cada novo segundo no qual eu respirava profundamente, fui impelido a digerir a realidade deste Houdini encarcerado em seus próprios antagonismos e aviltar toda a constelação de imbricações traumáticas que o assombra. E quando, finalmente, pude rever esse vampiro, tudo o que pude enxergar foi um vácuo em seus olhos, como se a verdade que eles detêm fosse tão tripudiada diariamente que perdeu-se, imiscuída em verdugos emocionais.

Salvo que fui, aportei em mansa baía e dormi, acariciado por um vento lento e frio, os olhos sem o poder de se controlar, forçaram-se a fechar para poupar-me de qualquer evento. Mas nada sucedeu-se. Dormi em seus braços... Ainda não despertei.  
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Parece meio óbvio, mas eu escrevi esse texto como uma continuação de um texto que escrevi em Maio do ano passado chamado "Covardia". Eu até achei que houvesse escrito isso um pouco depois de maio, mas enfim, só reforça o que eu já deveria saber desde há muitos meses atrás. Mas foi bom, foi ótimo eu ter enfiado a minha cara em chorume mais uma vez, porque deste ato repugnante e humilhante surgiram oportunidades profundíssimas de reflexão. Eu refleti muito. Ah, acho que isso merece até outra postagem.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma Folha

Há que se respeitar o que não se conhece, por medo ou cautela, o que não se compreende e o que se move de maneira familiarmente estranha, como um tímido mover-se nas profundezas da inconsciência, um mover-se do qual sabe-se a existência, é reconhecido, porém não se pode precisar, explicar, desenhar ou expressar. Ele se basta, essa coisa alguma que é tudo. E apenas por sinalizar sua existência, projeta profusões de sensações tão confusas à mente humana, mas tão cheias de vida que escapam à delimitações, às noções maniqueístas, à teoremas tão logicamente construídos.

Sou fascinado pelo que não se sustenta sobre dóricas colunas, preferindo os intangíveis caminhos, ausentes do que lhes guie que não o sentimento atemporal e auto-suficiente. Quando pude, finalmente, ainda que brevemente, descansar desta peregrinação infinda, refestelei-me sobre minha calma e eternidade condensada... Acordando de um salto, pus-me a par de mim mais uma vez, de volta que estava de uma viagem longa, da duração de vidas celestes - a convenção a qual chamamos "tempo" expressa-se por nossos parâmetros reduzidos, que, uma vez desabrochados, são relativizados e contestados ante a fatos que são gerados pelas coincidências do acaso. O ser humano sempre a ser posto em contradição pela magnitude do mero fato de existir, banalizado. - E de volta que estava, olhando para trás, vi dias e mais dias, semanas, anos... Não sei mais, a sensação reside em mim, jamais esquecida, sem necessidade de ser esmiuçada, para mim, sem sentido para mais quem olhe, a não ser que fossem eu. E o amor pela sustentação sólida e robusta ganha seu prestígio com o cronológico pulsar do relógio concreto e tangível para ser apreendido pela consciência física, que jamais se entende totalmente com o indizível.

É canônica a consequência de uma experimentação inclassificável, porém tal algoz cria-se pela ansiedade de pormos tudo em seu lugar, mas, uma vez que comparemos instantes com a eternidade, pode-se crer clara a ausência de distâncias e o alcance do que socialmente nos foi ensinado que se deve abafar, que a vida deva seguir uma ordem cronologicamente e milimetricamente pré-definida. Nada poderia escapar ao determinado e seria nosso próprio erro e, por conseguinte, dever restaurar a ordem, o equilíbrio, o inteligível. Eu sempre traio a norma, empiricamente atesto a falsidade dos constituintes desta base piramidal que se chama ordem "natural" das coisas... Em todo o meu corpo, espalham-se células nucleadas pulsantes de algo mais do que organelas, algo que as alimenta de ímpeto de viver, de vomitar os vermes tóxicos que me são empurrados diariamente quando sou obrigado a justificar-me o tempo inteiro e proteger-me o tempo inteiro. Justificar meus sentimentos e impulsos... Proteger-me do que possa me magoar e machucar...

Mas a dor tem sido algo além de carrasco, e, caso ela seja presente, eu ainda não estou pronto. E sempre que ela se fizer, ela me avisa que não estou pronto, que ainda não é a hora, que estou no caminho, que estou aprendendo, que estou sendo eu mesmo, porque sou feito de dor, de amor, de paixão por estar de pé, de depressão crônica e frustração, de resiliência... pelas frestas de uma promessa feita a mim, eu entendi o propósito, ainda que não desdobrado, porém contido. Ele me diz algo, como um feixe de luz a ser decifrado... O processo de sentir-se vivo apesar de tudo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

The Wait

As it unfolds, some kind of rebirth, as foreseen, but still bound to awe... Despite having avoided it successfully, it now clings having been sent by you, as if magically, through invisible breath. Your heat perceived, I now am enveloped again in your absence, having occasional confort, as it brings me closer to you, your mind to mine connected, as if further wasn't necessary. That always seemed to be the way you saw us. But, then, I, with my so peculiar need for human grasp, have been left with a virtual touch of your care. I appreciate having been unerasable from your memory, as you've been my comfort all this time... I, then, though filled up with nothingness, couldn't help smiling.

As I reach the doors of myself anew, the physical reflection of a world built by my bare hands, I can clearly see the soon-to-be picture of emptiness surrounding me as I look around this new beginning, starting from scratch, so needy of your face as I'm openly ready again to give in. My defenses lowered, my fears left behind, no experiences to look back on and all ahead of us... Thriving in the joy of being fully sure all my effort has been real and you are worthy of my being utopian, for I have never been as secure as you've made it feel like. All is forgiven, all is past, all before was part of my crawling, all that has brought me closer to this very moment, when I can be sure the grief was necessary. But all is coming to an end.

As I remove the last thorn from my tired foot, I will sleep for one whole year, so as to be woken up by your arrival. Feeling alike, words will be unecessary, since we know each other as we've always known through the centuries. And though it aches now and my sight is quite blurred when it comes to your reality, just a glimpse of  me in your eyes has been enough to fire me up and lift me up higher. I'm about to tear apart this demise and it's the end of the line for a world I've forced myself to fit in. All is natural from now on, all is true. And I have, yet, to clean up what's left of this impenetrabe shell. I can see, now, as time is so futile. I'm in charge of time. I'm in charge of my own illusions.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Caminhando

Basta que eu conheça alguém e esta pessoa já pertence inteiramente a mim. Basta que eu a veja passar para que seja enclausurada em celas que mantenho para uso em momentos que eu esteja distraído ou vazio. As mutações pelas quais passam inundam o ar com brumas invisíveis das quais apenas pode-se depreender o que elas provocam. Como se fosse feito apenas do que é calmo e frio, abraço essas brumas involuntariamente enquanto convido quem quer que seja a partilhar o que de mais precioso tenho a oferecer em forma de sonhos irrealizáveis, experiências elevadas do desfrute do mais puro sentimento, o cerne das sensações, lapidando um simples toque em uma união físico-mental transcendental, passando pelos contornos da vida unida, mantida separada dentro da união, passando pelo sombreado de dentro dos contornos, caminhando até preenchê-lo por completo.

E não há quem se doa desse encontro cósmico encarcerado. Porém, entrevejo pelas redomas espalhadas num espaço vácuo pequenos rompimentos, mais como buracos, algo fácil de ser conseguido, mas até aqui evitado. A coragem com que se estabelece uma micro-comunicação reticente, o lastro de um impulso embrionário contido por uma gestação secular, a maturação do ímpeto, cuidado pelos dias para que não promova um ataque ao equilíbrio de toda uma estrutura dita vital do cotidiano, talvez o cotidiano em si. O nascimento deste impulso, metamorfoseado no que a mente já tantas vezes concretizou no invisível é temido tanto quanto a felicidade. Ele, assim como ela, paralisar-nos-iam, esvaziar-nos-iam de toda a filosofia que nos conduz ao melhoramento de nós mesmo. E não sempre foi esse nosso intento? Por isso estamos tão afastados. Dourando nossos corpos nestes espinhos que são todas as pessoas, e saindo ilesos, quando assim conseguirmos, saberemos, que estaremos finalmente prontos um para o outro.

Porque uma via crucis encerra-se. E sem seu sentido amargo, como se deixasse rastros de decepção e derrota. Tenho reparado que o suplício é o alvo, conquanto estaríamos afogados em júbilo a princípio, mais tarde abater-se-ia sobre nós uma diferente sequência de calamidades, a qual só faz sentido sofrer junto.

Estranho que eu ainda desconheça quem faria todo o sentido. Mas foi então que eu achei. E não era uma pessoa, era um momento, era uma união de diversos fatores entrecruzados e o mais importante foi que tudo ocorreu exatamente comigo, da maneira como foi, cada passo, cada ausência, cada falha, cada dúvida, cada dor, cada incoerência, cada não, cada sim. O tempo de eu tornar natural o que eu sempre apenas entrevi. Quantos anos eu avancei neste relativamente curto espaço de tempo? Esta pode ter sido a mais importante de todas as lições, mas e agora? Agora eu estou pronto para começar algo. Mas eu não sei ainda o que é.  

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Metamorfose

Por que não mais olhar aquelas fotos? Se o fizesse sentir-se bem ou mal, não faria mais diferença agora. De tanto tempo que teorizara sobre os mínimos segundos que compunham o caminho até chegar à sua felicidade, agora ele acostumara-se ao deleite de sentir a falta. A falta, miraculosamente ele havia conseguido transformar algo vazio em concreto, palpável, o nada em tangível. Saudações a este pequeno milagre que era em si um atestado, uma prova inegável de que estava pronto para tirar de si a vontade de encontrar-se e, enfim, havendo encontrado prazer em sua companhia, poderia dividí-la. Mas e as fotos?

Ao passar de uma para a próxima, as conversas já não doíam mais e o sofrimento parecia tão longe... Mas estava um pouco descrente que houvesse superado-se, livrando-se do casulo que era em si uma proteção mais do que um receptáculo propenso ao seu desenvolvimento, amadurecimento. Ele continuou, olhos fixos, a tela movendo-se cada vez mais rapidamente por entre as lembranças que despertavam aquele sorriso franco, tão aberto e gentil. Por mais que escondesse os resquícios sentimentais, os pedaços pendurados de um amor embrionário, esquecido há tanto tempo por aquela pessoa, ele sabia, mas nada de concreto havia que o fizesse lembrar, com certeza. Aquela pessoa havia resistido à ânsia de entregar-se a esse amor. Uma vitória, um teste, era isso o que ele havia sido: um teste vencido.

E com as luzes ainda vivas em sua mente, cada feixe que ilustrava o canto de um sorriso ou uma mania marcante de ajustar a face dependendo do que era dito, todos os detalhes concentrados como marcas de um tempo bom. Segundos bons, horas... Ele sempre havia almejado além do que meramente acontece. E eternizar essa beleza, ainda que não fosse o ideal, era o seu ideal. Ele fazia questão, aos poucos, de esquecer-se do peso que acompanhava a lembrança e, fazendo-se além, tratava a saudade como natural. Não sofria mais, não estava mais apático.

Ao perceber-se, cessara a necessidade de abraços e quando sentia-se só, apenas vivia e lembrava do tempo feliz que passava sem pensar na necessidade. Por que realmente precisar de outra pessoa? Se estivesse isolado do universo faria alguma diferença? Sentia, talvez, o peso da pressão que ele mesmo absorvera, a pressão que o mundo gerava de todos os cantos, nas mais diferentes formas. Não sabia para onde iria, guiado por uma força maior do que a sua compreensão. Entregando-se ao prazer de si mesmo, sentia a felicidade partida ao absorver-se em êxtase. Quando foi que o sensível tornara-se tão palpável. Observava no vento o carinho de uma vida leve, um caminhar alheio aos perigos de se estar vivo e conseguia ver a beleza das pessoas e o peso de suas, muitas vezes, duras palavras.

Havia cavado por dentro da poeira de sua própria decepção e vulnerabilidade, impregnando-se com esses microscópicos flocos de desânimo e resiliência. Era o que sempre almejara ser, ou, pelo menos, começava a caminhar para o que achou somente possível a partir de um simulacro. Mas não. Enquanto pretendia fingir, nada brotou, mas naturalmente... Ele apenas sabia ser natural e sendo ele mesmo, conseguia ser alguém diferente. Não sabia se era esse quem ele sempre fora ou se realmente havia se transformado. E transformar-se não é ser ele mesmo? Nossa essência nos guia para a mudança, e não estava satisfeito, porém, descansara. Ele, que nunca achara possível dormir sozinho, agora cochilava e a energia de um dia inteiro a frente pulsava.

Agora sim, estava pronto.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Nascimento

Debalde rechacei meus constituintes primários, em obséquio de metamorfosear-me, como passara decênios desejando. A imagem esculpida mentalmente, perfilada à frente das qualidades idealizadas traduzidas por minha naturalidade milimetricamente intencionada...

Uma mudança.

A fantasia me alimenta e nela eu vivo a realidade imaculada. A real realidade. Eu sou o alimento do qual provo para me sustentar em vivacidade. Estou feliz por amar a mim mais agora que entendo ser o que eu queria sempre ter sido, o que sempre fui. Provando desta fração do passado, que me fiz perder, corroboro toda a minha opinião sobre o universo que estava sendo posto em questão. Eu estava certo sobre mim mesmo e assim os dilemas se dissipam. Não houve perda naqueles tempos longínquos. Houve apenas o que há ainda hoje. E eu amo que seja assim. Que eu seja assim.

Arrancar espinhos da pele recém-curada, as manchas inevitáveis de sangue sofrido não mais me fazem pesar. Eu abracei a dúvida, meus questionamentos surtiram em resposta, a observação e o silêncio me guiando e eu estou pronto. Pronto para meditar por séculos a fio até que chegue à presença do que sempre acho haver já encontrado. A sensação indescritível ainda não me motivou a me regozijar com a ausência de palavras para descrevê-la.

Então, é desconhecida.

O que eu sempre quis foi a ausência do nome. Foi o irrespaldável, o etéreo, místico, poeira sobrenatural de sentimentos. Resgatando-me de minha própria invalidez, eu me concentro prazerosamente em analisar minhas ações, meu ser guiado pela sinceridade do que sinto e na certeza de como eu sinto. O mais importante para mim, e todos me ajudaram, todos me ajudaram. Pisar na ferida aberta fez com que eu chegasse ao abismo de mim mesmo.

E de lá escalar.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Desconhecido

Qualquer tremor é o catalisador da agitação de átomos, almejando desordená-los, fundidos estão, como que aglutinados. A estrutura molecular, oriunda de remotíssimo empirismo, encerra uma personalidade sobre a qual apenas se sabe vislumbres, a centelha que a anima é o que se procura descobrir, com o nome sentido da vida. O meu sentido da vida. E para cada um tal qual o seja.

E não estou ao ponto de lançar-me pela fenda cataclismaticamente gerada. Mas as lacunas que me formam são a prova da ausência como construtiva, pode-se fazer um tudo com nada. Reticente, como era de se esperar, os geradores de dores agudas, porém afáveis, como salvadores erguem as mãos, um castigo especificamente formatado aos infiéis. Nunca fui fiel a mim, e foi tão fácil ser leviano.

Reencontra-me assim, anos depois, uma coisa disformemente deslumbrante, quanta beleza na emoção de abraçar o passado desta forma, cada vez sou menos feito de átomos e mais de coisas que não têm nome, não nomear exime a responsabilidade e aumenta a coragem, no criadouro de engrenagens cegas, uma fábrica de carne e osso trabalha sem férias para que o mundo seja perfeito. Estou atrasado para ser o próximo produto final, desde quando eu saí do projeto? Quando me foi dada essa coisa de estar acordado e dormindo voluntariamente?

Como estou vazio em todos os sentidos. Como se a processar-me novamente, cada pelo de meu corpo é um arcabouço de vida, coletando milhões de impulsos a cada segundo, no fluxo do pensamento, a cada olhar esbarrado, cada auto-reprovação e quando mínimos medos são vencidos. O que se faz para amar ignomínias? Está além de mim provar-me o quão maior posso ser e, no entanto, por vezes é obviamente natural a infantilidade desses opróbrios. A questão, em .epifania, se desdobra, humilhada pela carência de mistérios, ela se relaxa e adormece e eu a vejo clara e banal. E toda a árvore. Seus galhos contam a história e eu tenho tudo na minha memória e é uma pena reler. A riqueza de detalhes suporta todas a aparente insensatez atirada, como que bela, como que madura, como que plausível, como que natural, como que inocente, como que coerente, como que coesa, como que inofensiva.

Desta vez, haja um pingo de sangue aguado no chão e eu o restituirei a quem o derramou, certo que meus olhos continuam imaculados. Um tiro celeste vindo das profundezas da Terra agora soa como um sopro de vida, eu provo a vida que me energiza e ocupa os espaços vazios, continuando eles, porém, vazios e os quero assim. Quero-os engrandecendo-me, buracos que me ausentam de tudo o que achava e achavam sobre mim mesmo. Eu sou infinitos a cada pessoa que passa por mim e não sou nenhum deles com os quais elas compararam. Anos depois, eu quererei encontrar-me como agora e abraçá-lo pelo impávido que foi, algo que eu jamais conseguirei repetir. E não por apenas um momento, mas os inconstantes percursos, inimagináveis e complexos... Nada mais que verdades derramadas, como um selo, como um diploma. Eu jamais errei na minha vida. Se errar era estar no mesmo lugar. E quando eu me reverter em pó? Quando direi para isso tudo o que ficou o quanto eu não me arrependi, o quanto eu sempre soube, a cada instante que estava sendo a base de mim mesmo. Desconhecido.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Ponto Fraco

Um pouco encostado numa árvore repleta, as sombras que ela projetava deixava entrever raios de sol fracos que queimavam de leve apenas a epiderme renovando o cansaço de um dia de intenso desgaste mental. O torpor do sono se apoderando dos músculos já relaxados, a mente divagava sem que se percebesse por campos mais verdes ainda, uma calma apenas incomodada pelo soprar de uma brisa quase imperceptível. Aos seus ouvidos, bem ao longe chegavam sons indefiníveis, então ele não prestou atenção, na verdade não os havia notado ainda. E relaxou, talvez tenha dormido.

A cada hora, porém, o som se definia em contornos sonoros, assemelhando-se a sensação quente, como se algo o provocasse com extremo zelo e vontade de ser notado. Sonhos multicoloridos, adornados na linha do tempo o fazia ignorar que era um ser humano e vivia dentro de si próprio neste constante estado de relaxamento mental e era auto-suficiente. Nas mãos sentia a grama se tornar mais viva e escorria verde-clara de suas mãos. Ainda que insetos chegassem a pousar onde ele repousava, nada havia que o fizesse erguer-se, ele era uma completude. Mas ao longe, menos, mas ainda longe, os sons se repetiam.

Ao abrir os olhos, porque o despertara, tais sons só podiam ser passos, mas sem corrida, sem qualquer ambição que não fosse apenas andar naquela direção. Ali estava algo que não pertencia a todo esse universo mansamente designado por ele e fibras que não houvessem sido tecidas por sua imaginação eram como existir água dentro de um vulcão. O que há que a isso se assemelhe? Ele, porém, fechou os olhos, estes por tanto tempo quanto antes já não permaneciam relaxados e ocasionais miradas na direção do azul infinito eram repletas de esforço hercúleo, mas ratificado.

Decidiu que ele mesmo era o mais importante com o que se preocupar, enquanto estava ocupado em saber-se mais, os passos se alargavam (ou fora o som apenas?) sem que ele sequer notasse e havia se tornado o mestre na arte de desviar-se. Até que a ausência deles despertou seus olhos para o que pudesse estar perdendo, uma vez que todos os mundos não poderiam ser previsíveis a seus comandos e conhecimentos, mas ele não sabia disso. Por julgar-se ciente até do que não se enxerga, quando abriu os olhos, deparou-se com uma torrente de sensações que o fez querer não mais o que sua vida inteira o havia satisfeito além de suas perturbações. Mas o gosto do novo que não estava em sua boca o tornou um ser ausente de si mesmo e ele não sabia viver sem saber o que fazer. E não viveu. Mas isso não era para ser vivido. Isso era alguma coisa que assim foi e, melhor que não tivesse sido, ele não sabia administrar que não fosse como ele sabia que tinha que ser. A faca enfiada no peito, se auto-justificada, é melhor que flores como presente.

Quando os passos se afastaram, um vazio controlável o fez uma reminiscência de alguma coisa ruim antiga, apenas ali enterrada, levantara a cabeça de leve para lembrar que nada no mundo é para ser definitivo. E as lições que havia aprendido o fazia não mais estar perto de alguma árvore. Mão sabia onde estava, na verdade. Era a parte que não entendia, era a parte que lhe havia sido negada, era o que ele buscava, e jamais havia tido. O que julgara seu apenas por seguir descansando dessas tempestades que provocava dentro de si e engolindo toda a tormenta, ele julgava que fosse estar perto de se libertar e o inevitável o completaria com a abertura dos céus e de lá tudo o que ele não havia feito nada para ter e estava acontecendo naquele momento, era isso, era agora! Era o que estava na história que havia escrito, detalhes repetidos em diversos momentos, como uma recompensa múltipla por ter sido além de si mesmo. E ter duvidado de si soava agora tão estúpido, agora que ele via na sua frente o universo inteiro fazendo um sentido cósmico vazio de razão. Ele se bastava.

E o que havia desvirtuado essa certeza? E onde o pé havia se enterrado na areia? E em que momento ele deixara de ser um ser humano? E se suas qualidades o superavam,então por quê? Por que aqueles passos ainda podiam ser ouvidos e ainda eram cheios de significado se nada acordava com sua lógica mais do que provada? E por que a vida era cheia de fel? E o que era que tudo aquilo queria dizer? Não poder tomar as rédeas da situação parecia uma impotência nunca sequer vislumbrada de ser aceita. Há tantas formas de cortar essa falta de autenticidade e adiar ferimentos inocentemente provocados, uma vez mais entrando pelo mesmo caminho já retrilhado a exaustão, até na força essa fraqueza perdura impiedosa. Não há como compreendê-la, talvez não haja como livrar-se dela e o rasgo, essa vontade adormecida emerge novamente enquanto todos dormem tranquilos em seus travesseiros fofíssimos. Ele tem nas mãos e os dedos estão imobilizados, a mão não fecha.

Aquilo, assim, sem sentido o fazia relembrar algo que se esforçara tanto por esquecer. E o havia feito. E como não sabia lidar com o mesmo raio caído duas vezes no mesmo lugar?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Covardia


Dentre as ventosas pelas quais engole o que lhe falta, serenidade e paz de espírito, tem o costume, esta criatura, de vagar em lodosas superfícies, seu peso monstruoso apartado pelos corpos que repetidamente se atiram a seus pés em admiração forçada, não sabendo de onde vem. Tudo canalizado pela abjeta forma amorfa, desfigurada em sua essência, a boca torta pingando dentes sem funcionalidade, sugando a pureza e jogando todo o erro de sua existência, frustradamente tentando justificar-se estar neste planeta. A massa decomposta se arrasta e sua carcaça putrefata vai emitindo tentáculos que se prendem às pernas de quem passa, uma suave simulação de espirros doces atraem quem tenha buracos em suas almas, à busca de conforto, inocentes por desenvolverem seus sentimentos mais acolchoados, a besta selvagem lambuza com sua gosma corpórea fétida qualquer um que esteja alienado de si. Por ela se matam, por ela se privam, por ela se confundem. A enorme covardia do ignóbil enviado pelo mais invejoso dos deuses sobrepõe-se ao asqueroso simples fato de esse reles lixo tóxico respirar.

Mestre em dissimular-se, como líquido que se encaixa em qualquer recipiente, se alarga e ocupa as faltas de seus hospedeiros, dando-lhes o conforto tão sonhado, eles se sentem um só com o pusilânime parasita, seus olhos retorcidos, como fendas em meio ao corpo repugnante, uma visão de horror do centro-vivo de uma alma deturpada e corrompida por suas fraquezas maximizadas e egoístas. Embalados em sono profundo, ausentes do asco que suas vidas se tornaram em comunhão com tal aberração incoerente, um fruto bichado e merecedor de todo o escárnio que lhe sobrevier, odiar tal fonte de infelicidades é o perdão merecido pelo mais alto escalão da santidade. Paradoxal citar beleza em mesma linha de pensamento que a escória do universo. E drenando as almas muito vagarosamente, inebriando suas vítimas com seu falseamento que é a razão de continuar a existir, o vírus começa a transmutar-se, livrando-se de seu alimento, pisando mais aliviadamente e enganando-se de que é algo melhor do que fora, como se tal evento possível fosse, ignorando que é intrínseco a sua nojeira vital que sofra a cada vez que respira, uma justa punição por roubar o ar do mundo, tão abjeto pedaço de engano.

E houve quem se desse conta de que era impossível ser humano aquele acúmulo de frustrações e palavras calculadas, impostadas em um discurso polido e neutro, era impossível que corresse sangue quente naquela tentativa de modelo de virtudes, naquele arremedo de gente, tão artificializadas eram todas as suas atitudes, tão inconsistentes eram suas frases, tão vazios e fracos eram seus movimentos. A estagnação aparente condenava o pantanoso ser abissal a julgar-se capaz de definir não relativizar situações e fatos, por estar acima do mundo, quando jamais havia caminhado metros além de seu ponto de partida e após tantos séculos de existência era o mesmo infantiloide débil-mental que sempre fora, imaturidade em um corpo tão incapaz de ser humano, tão falho e limitado, tão privado e tão bem-disfarçado. A consciência que inflava suas vítimas as pulverizavam ódio e o histórico de finais catastróficos não era mais nenhuma surpresa, agora sim, era mais do que justificável e pouco havia sido o que lhe sobreviera. Antes houvesse cessado de vez que tal traste permanecesse a caça de pobres coitados.

E conduz-me ao centro de mim, reavaliar-me por meu próprio mérito a realidade. Jamais considerar-me com a superficialidade pseudo-conflituosa característica dos inertes em auto-comiseração contemplativa, dos submissos a vontade alheia, dos derrotados no âmago de si. Eu desmembrei a besta aleijada, retirando cada pedaço de sua nojenta carapaça e grudando ao meu próprio corpo para que o nojo de mim mesmo próximo a qualquer fato que me lembrasse esse imenso e profundo buraco me enchesse do ódio necessário para querer fazer a morte parecer um alívio bendito. Não mais palavras vazias e falsidade teórica. Não mais cenários fantasticamente coloridos, pintados com tanto talento por mãos reticentes e hesitantes. Eu enfio a mão na carne e esbaldo meus dedos em sangue pulsante e pedaços de matéria humana, o clímax do ser orgânico. Cuspo nesse amalgamado de transparências holográficas recheadas de utopias pueris e etiqueta burguesa. A moderação patológica guiada por uma crença em um auto-valor soberbo auto-infligido e invisível constitui o cerne de um vendaval de mentiras, como uma fortaleza de vidro. A armadilha perfeita.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Maior de Todos os Abraços

Tão distante me encontrava do maior de todos os abraços, que nessa agonia por ter meus braços de volta não conseguia distinguir entre os infinitos formatos, a textura da pele, a cor, o cheiro e os pelos que roçavam, ocasionalmente, meu corpo inteiro em um envolvimento pleno. Mas bastava que eu meramente fechasse os olhos e um som longínquo, aumentando com o passar dos minutos, às vezes mais rapidamente, às vezes mais lentamente até virar um estrondo me despertava. Eu, atônito, percebendo-me sozinho, precisava de braços novamente que tapassem minha nudez, deixando-me no regaço de quem pudesse fechar os olhos comigo enquanto eu dormia. Mas quem o faria? Antes que eu pudesse perceber, mais uma vez, o formato era diferente, tudo era outro, mas o conforto era o mesmo, ainda que por dentro minha pele se contorcesse. E não achando o que eu sempre busquei, quando achei, eu procurei com tanta dedicação, anos aparando meu cérebro para que chegasse a meu próprio convencimento de que toda a violência, arrancar pedaços de si, era a coisa certa e melhor a ser feita. Mas quando achei, eu, de alguma forma, virei apenas braços e todo o resto de mim, jogado a um canto da minha memória, se espremeu de dentro para fora, no processo interrompido no qual eu havia me dedicado totalmente a ser unicamente eu.

Da árvore que agora era, galhos eram arrancados com a mesma fúria com a qual cresciam, de minha cabeça começava a florescer o que eu era finalmente, brutalmente ameaçado de secar por minhas próprias ações, eu plantando insetos devoradores de sentimentos e ervas daninhas ao redor de meus pés fincados em toda a terra do mundo. Jamais eu poderia supor que o meu objetivo era o que sufocaria minha colheita, se da forma como eu o estive enxergando todos esses anos, ele apenas poderia cortar-me no final e tornar-me uma árvore em meio a um campo de verde vibrante. Qual o mérito que uma folha tem de existir entre mil folhas? Mas a minha, brotando de entre as rochas secas do sertão conseguia ser uma folha multicolorida, ameaçada em sua luz infinita por minha ideologia de vida, arraigada em mim como um vírus, me devorando poucos milímetros a cada mês que eu fechava desapontado.

Eu não sei explicar como os braços me contornaram, tão macios e quentes, sugando toda essa fraqueza que me desmotivava, fazendo-me sentir completo novamente. Braços que transbordavam presença e amor, um amor forte, de posse, mas uma posse feita inteiramente de proteção. A beleza dos braços me deixaram estupefato, de imediato eu soube, naquele instante, que minha busca cessara, o maior de todos os abraços estava ali tornando-me um ser superior a mim mesmo em extremo conforto comigo mesmo, ele havia feito-me o que eu sempre sonhara. Em prantos, desesperado por querer encontrar o resto de quem havia me feito aquele bem supremo, senão Deus mesmo, me provando que existia! Mas não o encontrei, uma voz apenas. A voz de Deus, sussurrando no meu ouvido, um êxtase inexplicável e a certeza de toda a felicidade e que todo o futuro seria de prazer sublime... Ele me disse, completamente desprotegido, ele me disse que eu havia encontrado o melhor que o universo poderia me oferecer, que eu estava nos braços mais familiares do mundo, eu olhei ao redor, eu me abraçava e não conseguia me largar.

- Toda uma vida desperdiçada atrás de uma pedra que estava no meu bolso?
- Nenhum tempo é perdido, nenhum sofrimento é inútil, nenhuma epifania é mera divagação.
- Meu arrependimento queima a sola dos meus pés, de onde parte toda a coroa de flores, agora um pouco chamuscada pela vergonha de me entregar ao ínfimo de mim inúmeras vezes.
- Se preciso, eu me faço carne e sangro mil vezes, apaixono-me pela mulher mais vil e imunda da alta-sociedade e sofro com o olhar de desdém que ela me lançará, pisando em minhas declarações de amor incondicional, lambendo o chão que ela cospe. O amor que me atravessa me faz humano tanto quanto me diviniza e ao olhar essa mesma mulher, anos depois, com indiferença enquanto ela tenta me apunhalar novamente, eu estarei sendo um pouco mais fiel à luz inabalável que carrego no fundo de mim, esperando onde possa jorrar.
- O que temo é o eterno.
- O que é, que não o agora infinitas vezes?
- Essa certeza é como um diamante, falta-me algo.
- Estamos todos na eternidade agora mesmo, assim, não existe espera, não existe dor, nem ausências, só existimos nós e quem amamos, pairando sobre nosso momento eterno, uma marca em nós, parte de nós.
- Todos que carregamos, todos que amamos, de mãos transmutadas no maior de todos os abraços. E apenas eu posso dá-lo. Eu apenas que tenho em mim todos que amo de uma vez só e tudo o que sinto quando estou perto deles, cada um de uma vez e todos de uma vez só. Eu sou o maior de todos os abraços, eu sou os mais tenros e mais fortes braços que já me tocaram. Eu tenho os braços de Deus colados aos meus, mais um, na verdade, como mais um junto a todos.

Uma felicidade eterna, feita do que se condena todos os dias. Eu não preciso do que sei seria minha maior falta, eu não preciso. Mas, um dia, estarei, ao lado deste símbolo, além de mim e aglutinarei incontáveis felicidades umas nas outras. Um retalho do planeta, sem compromisso algum de obrigar ninguém a nada. Eu nem tenho mais controle sobre mim, é um caminho sem volta deixar-se guiar por si mesmo.

domingo, 22 de abril de 2012

Cacos

Adaptando cuidados que já me foram familiares, eu tento forjar uma imagem do passado, tão bela como eu não sou mais. O objetivo passa a ser copiar o que eu desaprendi, com tantos cortes, cada vez mais profundos, transformaram-se em cicatrizes, e outra vez abertas. Estranho eu não saber olhar para frente.

Uma coleção de qualidades intocadas, um código de conduta impecável resume todas as suas ações e controlam cada passo e cada pensamento. O que se diz poder ser mais racional do que ignorar qualquer razão emocional para jogar-se de cara na camisa de força do bem-agir? Uma honestidade patológica assoberba-te, mas o erro que o certo evoca é imenso demais para ser digerido. É melhor deitar sobre estacas finíssimas do que cobrir-se com um manto, o qual encontrou ao acaso, andando, preocupando-se, um momento leve no meio do caos.

Por diversos lapsos, pego-me cogitando dar novamente um passo atrás que poderia ser mil a frente sem que eu saiba. Mas então pequeníssimas palavras são capazes de fazer meu sangue gelar e voltar a curvar-me para dentro de mim. É impossível eu ser refém deste medo e estar tranquilo, o tempo de agir sempre foi o maior problema e as dores se acumularam, algumas curadas, mas não se sabe o que tem ainda por baixo. E em quanto tempo as coisas não mais teriam a possibilidade de ser como foram e estão sendo? Eu apenas não vislumbro qualquer chance de um futuro agradável, não-repetido.

Uma gota de chuva no deserto. Apenas, mas nunca pareceu mais do que isso, é bom estar no árido do deserto, o sol escaldante, eu prefiro a honestidade do sol a essa gota inconstante e irreal. Palavras animadoras, mas nunca consigo perceber o real, nunca consigo saber o concreto dos sentimentos... E deveria saber? Não é a velha mania, não é. É apenas querer saber algo mais e não saber como. Eu prefiro, então, a claridade do sol extremamente quente. Estou bem aqui sem chuva.

Uma companhia que me tem adocicado as atitudes, mas eu não consigo me revestir de pouco. Eu preciso de muito mais do que qualquer um que conheço pode me dar, eu ridicularizo os fracos, eu menosprezo os pequenos, eu escarneço dos humildes, eu provoco os bons, eu repudio os satisfeitos, eu piso nos incompletos. Para mim, aceito apenas o infinito, preciso do abraço de mil braços e da satisfação do amor pleno sustentado. Eu sou sincero e não temo minhas fraquezas e nem meus sentimentos obscuros, eu gosto de arrancar sangue de quem me ama para ver se me amam até na dor, eu os faço chorar e espero que se contorçam de dor dizendo palavras misturadas de carinho e ofensas. A autenticidade deles me faz ser real, porque o meu amor é sempre o maior do mundo inteiro, minhas ações são sempre em prol do melhor para todos e eu estou acima de todas as demonstrações reles de sentimento que até hoje presenciei. Patéticos seres, ninguém é capaz de alcançar o que eu vejo tão claramente.

Acabou que mergulhar em fantasia e idealização sempre foi mais aprazível do que confrontar arremedos de pessoas as quais valeriam mais se servissem de experimentos científicos do que espalhando suas imbecilidades pelo mundo. Acabou que estou tão cansado dessa necessidade que cada vez mais me apaixono por mim. Que maior há em termos de tudo o que eu sempre sonhei? Pequenos grãos, o que eu não daria para que todos se aglutinassem e assim talvez suas falhas se cancelassem e suas qualidades conseguissem restar, pelo menos uma e já seria uma grande diferença. Por que eu me esforço tanto em unir-me ao que não se deve ser unido.

Isto aqui não é o exterior, quando me sacrifico em pensamentos estou revendo tudo o que me faz sentir mais vivo e delicado, o conforto de poder despir-me e dormir até para sempre, nos braços que irão me acalmar se eu tiver um pesadelo, e eu não precisarei manter uma pose de que estou acima de tudo e sendo forte o tempo inteiro, eu quero poder ser que eu escondi num fundo de mim que se revela por momentos em que estou sendo completamente amor. Eu, parece que eu só queria estar assim sempre, ser assim de novo. Ser esse amor que sei que guardei em alguma parte de mim para usar de novo quando a hora chegasse. Eu consigo vê-lo por vezes, eu o vi há algum tempo. É mais lindo do que qualquer visão do paraíso. É o que eu sou de verdade...

Eu o contenho e por dentro e descobri que não estou completamente podre, ao contrário, a podridão eu externei. Por dentro sobrou apenas o amor que vaza quando sou descuidado e quando me sinto um pouco mais encantado. Eu me agarro a essa sensação, eu não sou como me amo sem ela. No final, eu não tenho como negar, eu preciso disso...

domingo, 25 de março de 2012

Hoje eu quero reunir toda a teoria e fazê-la real daqui para frente.

Talvez eu não esteja assim tão fortificado fora de minha mente, se qualquer sopro, até acidental, faz desabar toda uma linha de raciocínio, provocando fissuras em minhas convicções. Mas pode ser que eu esteja, por estar agora pensando que isso não devia me incomodar tanto. Porque expor-me ao que me machucará com certeza, cedo ou tarde, é a maior coragem do universo, você se jogar em uma bacia de ácido pelo prazer do vento que afaga seu rosto durante a queda. Uma sensação sublime.

Na verdade, eu quero ser mais simples, eu fui um tormento para mim mesmo durante muito tempo e isso poluiu tudo a minha volta, se arrastando em volta das minhas pernas, para derrubar quem fosse e me isolar e deu muito certo. E nessa certeza de estar sendo errado, porque dava tudo errado, eu não conseguia acertar, mas na verdade eu não estava errado, estava sendo apenas eu, diferente do eu que queria ser. Eu me idealizei e encontrei quem eu não queria em mim... E nesse processo, eu, me julgando superior a mim, exacerbei meu orgulho e ele foi apenas o que me sobrou, impedindo-me de olhar para os outros como eles são e sempre querendo mudá-los para o que eu tinha certeza do que seria melhor que eles fossem.

Mas hoje eu não estou imerso em minhas analogias e metáforas, encerrando o que eu penso em proteções atentas e belamente construídas para fazer belo ou plástico algo doloroso e horrendo. Eu sou eu mesmo hoje e meu modo de escrever sem adereços. Não estou feliz, não estou satisfeito, mas acho que consigo ser triste de uma forma mais saudável, tentando entender a minha tristeza e porque ela continua aqui, mesmo eu entendendo tudo. E não quero me censurar, quero me fazer de momentos.

Não estou com muita vontade de viver, é verdade. Me desanima estar aqui, pode ser que um dia eu leia isso tudo e ache uma bobagem, pode ser um sentimento um pouco egoísta e tudo o mais. Mas o fato é que não me matarei nem nada, mas estou extremamente sem vontade. Acho que ainda estou humilhado por descobrir que estava tão errado sobre tudo o que eu acreditava e as minhas verdades mais preciosas, minhas ilusões mais amadas, tudo o que eu sempre cultivei desde sempre, desde que eu tinha 13 anos, tudo desmoronou aos poucos e agora foi-se a última dessas convicções.

Isso pode ser bom por um lado, estou em branco para novas ideias, mas também dói aceitar que nada era real e realmente aceitar as coisas como estão. Eu não sou bom de aceitar nada, eu quero que tudo saia como eu imagino que deva ser, pois faz todo o sentido. Eu ainda não consegui entender uma coisa: o modo como eu espero que os fatos se desdobrem sempre leva em consideração o bem-estar dos envolvidos. E leva em conta também uma questão de justiça, por merecimento, por lógica também. Ou seja, como é possível que tal fato não aconteça? Como é possível que o certo não ocorra? E eu ter que engolir isso está sendo o maior esforço que fiz na vida. Eu poderia não engolir nada, bater de frente, mas sinto que isso me faria sofrer e estou cansado de sofrer... Eu não aguento mais a ausência, as mesmas sensações que se arrastam há anos. Alguma coisa precisa ser mudada.

Pode ser que tudo faça sentido e é impossível você compreender um livro começando pelo meio e depois indo ao início, um pouco mais depois do meio e agora o final e depois logo antes do meio. A ordem parece confusa, porque eu não entendo, mas pode ser que nada esteja errado, pode ser que eu precise entender muita coisa antes que eu seja quem eu almejo ser. Antes que eu esteja em paz e possa, assim, estar pronto para algo especial. Digo isso em todos os sentidos. Mas eu não quero ficar ansioso pelo especial. Eu quero sugar cada aprendizado e quero ouvir cada palavra, porque têm sido, algumas pessoas, meu infinito aprendizado.

Eu queria comer algo, mas estou sem fome. Estou embrulhado. Toda a vez que eu me sinto assim, imagino que seja uma parte do meu orgulho me perfurando por eu estar me humildando. Não quero perder de vista quem eu sou, meu limite e nem meu valor. Eu não serei um capacho, existe uma diferença que as pessoas ignoram entre humildar-se e humilhar-se. Humilhar-se passa por cima de você mesmo, não é saudável e te prende, te faz sentir menor, te faz ser infeliz, te faz desacreditar de você e do mundo. Humildar-se é infinitamente mais difícil, porque envolve coragem. Precisa-se de uma coragem inabalável para saber-se errado e reconhecer o outro como certo sem perder-se em frustração. Eu não estou reconhecendo ninguém aqui, estou apenas comigo agora, desfazendo meus castelos e vendo como erguer algo real, nem que seja uma casa modesta, mas algo real. Pode ser que ela desmorone em um dia, mas terá sido real. Eu não posso mais viver em fantasias, em palavras doces de adoçante.

Eu penso em algo bom. Eu me esqueço às vezes que sou muito, mas muito jovem mesmo. Parece que já vivi centenas de anos e estou exausto deste mundo e suas decepções. Cansado de ver as pessoas errando inutilmente, cansado de ver o de dentro de tudo enquanto todos vivem suas vidas pacatas e cansado de achar medíocre e despropositado algo que comove alguém, por exemplo. E também cansado de ser comovido por pontos em minha vida guiados por uma imaturidade minha, eu não consigo aceitar minha imaturidade e eu estou tão na idade de errar, eu posso errar em algumas coisas, eu não sou perfeito. Por que eu quero tanto ser? E por que meus sonhos nunca são eu estando sozinho? Mas até isso estou começando a entender, a não censurar, a ser mais eu mesmo e honrar o que sinto e me respeitar. Eu sou assim e vou mudar o que me incomoda e o que me faz sofrer, me atrasa. Mas não preciso mudar coisas que me fariam ser outra pessoa.

Na verdade, eu estou sentindo mais perto de mim a ausência como jamais senti e posso tocá-la até. Como posso sentir algo que não está aqui? Eu só fico pensando se... é, se... sim?

terça-feira, 20 de março de 2012

Verdade

Rasgou sem que eu nem percebesse, essa fenda por onde escorregam partículas geladas. Um frescor interno, ameniza as ideias, com o suor agora é sinônimo de calma e jamais excedendo o limite novamente pelo próximo segundo. E ao contato com a pele, como uma pelúcia verde em tons mesclados, a mistura de aspectos traduz-se no toque em alto relevo. Mas pelo corpo inteiro. Aos meus olhos chegam as paredes de madeira com alguma divisória vítrea ou janela de chão encharcada pela chuva. E algumas plantas. Os móveis organizados em algum alto desse andar térreo, o outro envolto em vendaval macio, os ambientes frescos pela própria natureza, a maciez em cada passo e tudo finalmente consegue se intercalar. Mas como se durasse um fim de semana, as palavras são cheias de normalidade e as surpresas aparecem como momentos luminescentes a partir de mim e eu mesmo, mas agora não mais só nós um. Minha mente evoca sensações físicas as quais não consigo precisar, mas sinto como se me tocassem, produzidas pelo invisível mental, são reais e me confortam tanto quanto me perturbam. Eu consigo perceber algum toque mais sutil do que antes, agora intensificado em mim, passando pelas minhas dúvidas e percebendo minhas incertezas e taxando de mediocridade os meus dias contemplativos, eu quero dragar a sua existência para o meu abismo de divagações e intersecções metafísicas com sortilégios místicos, fumaça esotérica e conclusões holísticas, pesadas exigências de intervenção divina, a música que cheira a chuva e me lembra de meu choro de infância, a razão infantil de eu me magoar está no fundo deste abismo sem fim, eu vou, mesmo sabendo, eu vou descendo cada vez mais e você não consegue ser infinito assim, na sua estagnação controladamente complexa e cautelosamente saudável. Eu estou apaixonado pelos meus ideais. Por onde podemos respirar se estamos debaixo d’água? Mas na minha mente tudo faz tanto sentido, até eu estar imerso vai produzir o efeito esperado, mas você, devagar, me disse, sem falar, que escolher é o que a palavra quer dizer, ausente de opiniões. Eu me segurei para não expressar qualquer obviedade antes de pensar bem e, eu mesmo sabendo que era real, insistia em, sem me dar conta, agir ao contrário. E estou aqui, pronto para ser maior do que eu finalmente e insistindo em diminuir-me. Recostado na cadeira sem cor, eu não vejo ninguém agora e não há mais razão. Só o barulho, o ronronar, a escuridão confortável após um dia de trabalho e eu rasguei meus pulsos pelo simples prazer de amarrar minhas veias umas nas outras. E tudo que eu faria antes, eu faço hoje com outros motivos, com outras pessoas, com outros objetivos e eu entendi quando você me falou sem palavras que eram por ações e eu sem saber sentir senti quando você respondeu o que eu queria de uma forma diferente da que eu queria mas que foi boa também. E eu destruí, naquele momento, um pedaço do meu orgulho. O que eu tinha de melhor era o meu pior. E quando o som coincide com seu som interno, movimenta todas as células com o mesmo ritmo, o corpo inteiro encontra-se com o que sempre fora feito para ser, nenhum corpo, neste estado, é menos que outro corpo que se assemelhe à divindade, eu estou aos pés da música que você toca da ponta dos dedos em contato com o formato dos pensamentos mais íntimos transmutados em guias das suas ações quando nos vemos e nos vemos sempre e estou eternamente plácido de mediocridade ordinária. E o nada me cai muito melhor. Eu consigo me alcançar, um carinho que me entrego, e desejo estar comigo assim, tão intimamente, olhando em meus olhos e sentindo meu próprio beijo, experimentando meu amargor e destilando de mim toda a incúria no trato comigo mesmo e com o universo, eu sinto faltar o ar duplamente, dois corações que se aceleram juntos e as mãos que se afagam, eu sinto a vontade de consumar-me a partir de mim e de sentir-me como outrora seria impossível neste devorar-se voraz de ambas as partes, eu avanço por dentro de mim e sinto como que tendo por inteiro agora, sem nenhuma outra respiração que não a minha, eu percebo meus gestos de prazer mais secretos e a dominação de mim causa o maior prazer antes já sentido por entregar-me ou possuir uma entrega voluntária. Eu relutei em deixar-me. Eu deposito em mim mesmo o que eu sei que tenho, produzido organicamente e levo a boca tudo o que sou de mais intenso e sensível, resvalando por todo o meu corpo que sou, despindo as faces que acreditei serem minhas reais. Eu sou o que brota de dentro de mim. O real, nesta comunhão se evolam todas as minhas faltas e eu me abraço ao fim para ter certeza, eu não preciso mais cogitar, eu me abraço até me entrar em mim pelo corpo inteiro, formando o eu novamente. O eu único. Eu sou eu unicamente em mim e pronto para seguir na busca, o fim nunca haverá.

Ao completar-se uma parte, eu sou agora irrestrito em relação a pulverizar milhões de partes em mim até me sentir completo do que não se pode unificar sozinho.

domingo, 18 de março de 2012

Pós

Eu estou aqui, sentado, sentindo a terra ainda receosa e gelada. Com os joelhos abraçados, a cabeça enfiada no vão que eles formam sem coragem de olhar para o que tenho ao redor e vivi muito tempo assim. Porém, agora, sabendo que a minha volta os ventos que rodopiavam foram incapazes de me retirar de minha posição contemplativa, eu sinto o sol queimando minha cabeça e costas e sou obrigado a erguer-me, com um pouco de desejo e alívio, para admirar o mar que quebrava a minha frente e eu jamais havia reparado. Posso levantar, bem devagar e sem ajuda alguma, apenas amparado pelo invisível, meu melhor de mim. Eu estou de pé, eu estou caminhando em direção a essa água infinita e misteriosa, oculta de suas verdades e, ao tocá-la, eu tenho a sensação de tocar na sua mão. É algo delicioso, mas ao mesmo tempo frio, já calejado pelo costume em estar pela metade.

Qualquer fio que teço novamente, usando essa água como linha, me leva a um lugar novo, mas acaba voltando a você e eu estar te contando isso é porque eu não consigo disfarçar, eu não consigo aprisionar nada em mim mais, parece que a escolha que fiz de ter me soltado me causou esse efeito colateral e só consigo ser eu mesmo agora. É como se máscaras não encaixassem mais, logo eu que estava acostumado e usar a frieza. Mas quando eu chamei, você sempre veio e então eu chamei mais e mais e eternas vezes, até que não fui mais ouvido. Eu estou de pé, eu estou tecendo novamente e a água espirala e abre fendas por onde saem maiores filetes e voam por direções adversas e eu sei que em breve terei que me cortar novamente para deixar sair de mim você aos poucos, que já se esgueirou pela minha corrente sanguínea.

Porque a sua prolixidade em qualquer ambiente me completa, eu que não sou muito de palavras. Em qual gota sairá você? A parte final de você e eu estarei livre, sem sangue já ou com muito pouco, esperando quem possa bombear mais em mim e me fazer eu de novo. Eu não posso ser infinito sozinho! Por que eu sempre preciso me refazer sem ajuda? E apreender as indicações de quem me ama, assim, no ar, e me esquivar da certeza de que irei me magoar novamente. Eu quero estancar, então, o corte, logo me arrependo de tê-lo feito e não quero te perder assim, com tanta dor, a dor de enfiar um estranho que não estava ouvindo a conversa, assim, de repente, enfiá-lo na minha carne e obrigá-lo a enxergar tudo o que meu corpo expulsa a força, em meio aos meus gritos e súplicas contra mim mesmo para que eu não faça isso e tenha você, ainda que não recebendo todo o calor que está pairando a minha volta, eu o envolveria e acobertaria você inteiramente, impedindo o infinito de sofrimento. Esse estranho precisa ver você gotejar, seu sorriso, seus olhos, seus trejeitos, sua boca, assim, se mexendo, seu cabelo, assim, exatamente assim como você não gosta, e tudo em você sendo retirado e tudo doendo e eu pedindo para não sair... Eu preciso desse amparo, de mais de um estranho, ou o mesmo realizando as várias perfurações que minha carne sensível ainda precisa e assim........

Eu fecho o ciclo de renovação em mim, posso nadar nessas águas, manchando-as com meu sangue para que ele desapareça no fundo do mar. Foi com você junto toda a minha alegria de ter te conhecido e todas as conversas doces, as palavras de ternura e os afagos e a raiva foi embora também e o amor está dormindo. O extremo de mim para amar, para odiar, para ferir-se, para ser feliz, todo junto foi como uma bomba atômica explodindo na minha mão e eu resisti a todos os golpes de lâmina afiada que você me deu, sempre com pena de mim, e eu me humilhando a cada passo, largando meu orgulho que é o que tenho de mais precioso e você não viu isso... Não viu que eu estava deixando até o meu orgulho de lado, isso eu jamais faria, mas o recuperei depressa e agora usarei isso contra você. Eu falhei em algum ponto, talvez em não ser tudo o que foi dito que eu seria. Eu preciso lutar contra o você que está em mim, o você que me magoa, eu preciso amar da maneira correta e estou querendo acabar comigo agora mesmo por ter chegado ao fim. Chegou ao fim. Eu não estou feliz, não consigo viver dos momentos felizes que tenho apreendido. Eu preciso do para sempre, eu anseio o eterno, o sólido, o inabalável e tudo o resto me parece pouco.
Eu me lembro de cada palavra. Eu me lembro de cada conversa e eu agora mesmo estou digitando sem poder parar porque se eu parar eu vou fazer de novo e eu achava que estivesse livre disso, mas eu não vou parar de digitar até que vá embora, precisa ir embora, mas agora, eu não , sei eu não sei porque está vindo com imensa força como meu coração palpita e minha mente só consegue embrar da última imagem, foi hoje mesmo, aquele tom de cor que nunc mais vai sair da minha cabeça e estou cansado com meus dedos doendo agora mesmo estão doendo meus dedos de tanta força que estou empregando para escrever isto aqui, mas eu não posso parar porque se eu parar eu posso acabar errando e eu prometi que não faria mais isso, mas a vontade é tão infinitamente intesa, mas eu quero ser mais que o infinito e parar com isso. Por que você está deixando que eu passe por isso, você não devia estar aqui para me proteger disso? Você não devia ser meu porto-seguro? Não foi para isso que tudo se deu? Eu não estou conseguindo aceitar e nem entender isso... Eu não sei mais e todo o meu corpo dói agoa, talvez se eu deitar eu conseguirei manter-me sem fazer isso e eu já me cejo indo lá e olhando fixamente e apenas olhando, vou ensaiar mas não vou fazer, eu juro que não, a casa está vazia e eu não posso, alguém tem que chegar neste momento, eu estou sozinho aqui e é isso. Eu estou indo lá, mas eu volto, eu esperonada eu volto. Com certeza eu volto eu sinto que pode ser a hora mas eu volto realmente estou sem coragem mas minhas mãos não aguentam mai... minhas costas e eu eu eu já volto.

Um pouco do enjoo permanece e a dor no peito também. Ela atravessa do peito até as costas, eu não sei o que ela é. Mas minhas mãos tremem agora pelo após. Quando entro em contato comigo, sem querer, eu pareço ser o que sou, ou não aguento o que tenho em mim e estou tentando aprender a controlar os efeitos disso. Mas eu estou tão cansado de tentar, e ter que fazer isso sozinho. O que me dói é que parece que o mundo sempre tem ajuda, mesmo não merecendo, mas eu não tenho. Eu não sei se mereço ou não, mas acho que eu poderia ter... Não é errado querer ter, acho que não é errado querer ser levantado por um braço enquanto o outro se apóia no chão para completar o reerguer-se. Eu sinto que fui levantado, mas fui largado e a queda assim era desnecessária. Abriu uma outra ferida que antes eu não tinha e esgarçou a outra que eu já carregava. Muito obrigado. Você salvou uma vida. Eu que salve a minha.

Só exausto. Apenas.

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Pareço não estar conseguindo manter a mesma linha quando escrevo. Será que estou assim tão fucked up? Estou reavaliando tudo, querendo sumir agora. Tudo extremamente desnecessário... estupidamente inútil, eu não vou conseguir aceitar, mas preciso e tenho que seguir. Deve ser este momento, estes momentos, eu vivo intensamente.

domingo, 4 de março de 2012

Ainda sem Definição.

Um suspiro de alívio por saber-me agora o arquiteto de todas as muralhas que ergui ao redor de mim em várias direções, respingando o concreto endurecido por meu corpo inteiro, meus movimentos, assim, retardados. De fato, sinto-me perturbado por andar em solo invisível, suscetível a falhas, mas tais impossíveis de serem previstas. Mas toda uma cadeia respiratória conta com uma sucessão fixa de processos sapientes dos limites de seus sucessores e antecessores, de modo que não se digladiam... Eu evito, hoje em dia, empunhar armas ou enfiar punhais em meu coração em dramático espetáculo, um monólogo sem platéia, uma chuva de demonstrações tão profundas de tão complexos sentimentos reveladores de inteligências tão aguçadas que cultivei dento de mim por tanto tempo, um orgulho por estar além, observando as massas se amarem futilmente quando minhas opiniões e ações rodeiam o sublime em cada gesto... Uma inutilidade completa.

Pois o achar-me exacerbadamente inumano me faz mais mundano do que o universo e nisso está a glória de estar vivo e eu me sinto vivo em cada fibra. Uma emoção sem origem, atacando profundo, movendo todas as células em um furacão... Mas como tantas vezes, algo se sucede, é que eu acho que desta vez a ordem se reverte e diferentemente da outra única vez, mais rápido agora, pelo menos a enchente de sentimentos parece ser autêntica e eu estou me preocupando agora com cada passo e cada palavra e me arrependendo de não ser perfeito por corroer em mim essa noção de ter de ser sempre o melhor para todos e para você ainda mais, porque eu sinto você tão precisando de mim e eu nasci para ser uma proteção, eu nasci para me auto-destruir não mais, eu não quero. Eu queria ser egoísta agora, mas aí então veio você e não me deixou, não me deixou mais ser como eu tinha planejado após tudo ter dado errado de novo e agora eu não consigo acreditar mais em nada que eu vislumbre que pareça certo e está parecendo tão certo mas eu vou fazer algo pra que não seja certo e assim eu volte ao que eu sempre fui. Não não... ... ... .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... e para que se não importa o que ocorra, eu não encontrei uma vulgaridade e nada é ordinário no que se refere e tantas vezes, tantos sorrisos acumulados, eu amo tudo o que se passa.
Eu cavei defeitos e só encontrei tudo muito natural.

E meu plano?
E minhas conclusões?
E minhas resoluções?
O que eu aprendi serviu?
Eu era tão forte quando me levantei.
Era pra isso que eu me preparei?
Estou me enganando? Ou tentando me sabotar de novo? Ou realmente enganado?
O que eu sinto?
Quando começou isso?
Podia ter acontecido?
Era iminente quando da criação de mim, planejado há centênios?
É?
E toda essa naturalidade feita concreta?
O que é esse real palpável?
Eu estive imerso em tanta divagação e teoria, tanto tempo cogitando e tentando entender, tanto tempo suspenso e aéreo, inconsciente que agora.... Eu estou paralisado, mas caminhando. A vida que se arquiteta fora de mim e eu tenho minhas escolhas. Eu acertei então?
E o tempo?
Isso é estar alegre e eu estou achando que é tormento por não saber lidar com qualquer coisa boa?
Eu vou...
Eu estou indo...
Eu só preciso de uma noite...
Sozinho...
Para deliberar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Reconstrução\ Sobre o Momento

Cada parte que é recortada cai, apodrecida, um pouco coberta de pele descamada. Por baixo, fios ainda ligam o tecido ensanguentado à nova pele, uma pele transparente, ainda nua. Ela se expõe aos poucos, se arrepia ao tocar o ar, se sente indigna de ser iluminada por qualquer luz, não sabe o que fazer ante qualquer olhar. Essa pele, uma pele que nunca ouviu sons com sinceridade, pela primeira vez assim, viva, carrega uma fagulha de vontade. Ela se alastra, seu desejo faz dela como um abraço há muito tempo reprimido, ela se espalha ao redor de si própria e vira a peça central, se torna a protagonista, não mais é uma, ela é. E sendo, ela não sabe como agir, não sabe interpretar o frio, o calor, a dor, o toque de outra pele, não sabe como se deixar levar, não sabe. Se sente tão pequena agora em sua totalidade, se sente vazia, mesmo tendo alcançado a grandiosidade. Ela não sabe mais como se chamar.
Ainda assim, mesmo sem saber bem do que precisa, mesmo sem ter certeza sobre o que quer, não achando certo que queira o que acha dever querer, ela existe. Pode ser que isso baste, pode ser que essa seja a resposta que tanto procura. 

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Esse texto foi o que iniciou tudo, mas coloquei-o no facebook e resolvi passar para o blog, porque ele está sendo um diário de sentimentos mesmo. Esse texto é de 7 de setembro de 2011, vou usar a data para marcar alguma coisa que estou pensando agora, mas não tem forma definida ainda em palavras. 

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Talvez seja que durante um momento, só ele importe. E nada do que construiu os que estejam nele envolvidos valha de nada. Pode ser que o momento se baste, que seja seu próprio começo, meio e fim, como num conto. Prefiro achar que ele seja como uma crônica, mais próximo, mais verossímil. E não perceber que o momento se refaz eternamente, mas espaçado; sendo incompleto, mas amplo e infinito dentro de sua característica mais particular que é a de ser desejado, não preceber isso pode ser fatal. Não compreender que o momento necessita ser ausente a maior parte do tempo, que ele necessita deixar-nos inquietos e saudosos, que ele necessita que o busquemos, nos angustia. 
Que profundo egoísmo e imaturidade querer que o momento perca sua essência mágica, tornando-o ordinário, tangível a nosso bel-prazer. Aprender a lidar com o que ele realmente é, sim, é a verdadeira beleza. E apenas assim pode-se tê-lo autêntico.
Mas e a paz de espírito? Pode ser que ela esteja em saber viver no tempo corrido sem ansiedade, sem querer, sem esperar que a vida se desdobre a nossos caprichos. Sabendo que qualquer gerador de felicidade só pode ser momentâneo. Vivemos de ilha a ilha, ficando mais leves a medida que seguimos, ou deveríamos ficar... Mas, em vez de querer, apenas ficar. E essa luta para compreender, esse esforço para se superar e todo o suor que brota do embate contínuo, o desgaste de tudo pode ser inútil. Inútil no final das contas.


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Esse é do dia 19 de setembro. Acho que eu estava começando a traçar metas para mim, mas ainda meio confuso sobre o que fazer. Não estou muito esclarecido hoje em dia, mas precisava compreender o que eu achava de momento. Isso continua sendo um sofrimento para mim, isso de momento. Eu quero aprender o que eu disse que deve ser feito. Eu estou devendo a mim mesmo postagens sobre temas que tenho medo de escrever sobre. Um eu já comecei e estou postergando por puro receio. Mas será a próxima postagem, tem que ser.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um Momento

Não havia maneira de bipartir o que havia nascido unificado. Como se a esgueirar-se por corredores funestos de ácido esfumaçante, uma lâmina de vontade oposta, criada pelo desprendimento de energia vital em fazer adoecer alcançou o cérebro de neurônios finamente interligados em sinapses hiperbólicas. Deliciando-se em passear pelos sulcos que naturalmente impediam as células de se aglutinarem, já que a simbiose não é saudável, promover-se-ia uma ruptura, esfacelando traços de memória. O resquício do sentimento de identificação adormeceu no âmago invisível do inconsciente, onde jamais haveria de ser perturbado, ainda que por si próprio o quisesse. E assim percorreram milênios de olhares antagônicos, um frio entre os dedos das mãos, um constante recompor-se de uma lepra interior em meio a um dia normal... E eu ainda mantive-me no centro de mim, para observar a rotação das infinitas partículas que a minha volta dançavam, ao mover de cada músculo, eu sabia prever todos os passos que se seguiriam, eu sei olhar de dentro para fora de tudo e expelir desejos incontroláveis antes que possam ser dissimulados. Eu sou o avesso do fingimento, eu sou o estupro do ser humano por si próprio.

A pele chamuscada ainda sofre arranhões constantes, a unha finca no sob-a-pele rosado e o sangue discretamente, um sangue cristalino embalsamado de ilusões pueris, esvai-se, como que acompanhando a água salgada, muito semelhante em sua constituição cristalina, um abraçar-se irrevogável, com pedidos de desculpa entre os dentes, as veias na testa querendo explodir involuntariamente, acentuando seu desejo de não mais habitar essa rotina a qual já tem por dentro de seus canalículos mais com esmero fabricados. Eu tentei alcançar o mais íntimo possível, na ânsia de não mais precisar esfolar as pontas dos meus dedos em teclas de computador. A vida inteira que é mais eterna do que eu jamais pude entender parece ter acumulado em minhas costas todas as minhas intermináveis auto-percepções, mas não, não é bem disso que se trata.

Recuperando o fôlego, tentando manter-me além de mim um pouco, para olhar para o lado e não reconhecer o outro lado como uma parte impregnada de mim e minhas emoções e meus transtornos falsamente contornados, e abrir mão de tudo o que me embaça os olhos, acostumados a fecharem-se para um mundo de necessidades fisiológicas e barbáries desviadoras de atenção. Eu corto com uma serra meu braço direito, logo abaixo do ombro, por ter a certeza de poder recolocar em seu lugar um braço idêntico, que vou encontrar no segundo seguinte a dor de perder meu próprio, o que vem é como se fosse o meu próprio e sei que será feito o sacrifício da doação abnegada sem nenhum pesar. E viver com apenas um braço tem sido meu maior desafio até então e não sei mais caminhar, perdi o equilíbrio do corpo inteiro e não sei mais realizar as mais básicas atividades diárias. Olho-me no espelho e sinto um nojo e vergonha de meu auto-sacrifício ingênuo, aprendendo a viver por mim mesmo, dependendo da ajuda alheia, mas ainda assim rechaçando-a. Se eu fosse incapaz de me entregar, seria a solução?

Eu me julguei tão abstracionista, imaculado ao alto, isolado em minha torre ebúrnea, tão mistificado e pulverizado de alegorias que me dificultariam a compreensão, sendo a expressão mais pura e verdadeira do que sinto, a origem do sentimento, meu sangue primordial vazado por vontade própria, como se eu me cortasse de propósito para poder continuar vivendo. Mas ao redor de todo o vidro, das escamas multicoloridas, eu não consegui me mesclar com essa vida mundana e todas as minhas tentativas de ser ordinário me corromperam até a doença algum órgão vital. Após reestruturar-me, despejei o arrependimento de acreditar-me capaz de ser diferente de minha essência que pulsa em paredes suaves de um veludo vermelho-sangue, o aconchego quase como uma colcha de seda em uma cama com trezentas e vinte e cinco almofadas. A proteção a qual confino tudo o que sou realmente me identifica com o utópico do ser humano, o qual agarro com afinco de animal instintivo e não meço palavras, não meço ações, recaio em mágoa profunda e idealizo tudo diferente, como se fosse reconstruir um mundo inteiro apenas pela minha vontade e eu não tenho medo de acreditar que a perfeição (para mim) é real, a essência muda, mas nunca se transforma quando é boa, ela adormece, camufla-se, torna-se receosa e tímida, mas em terreno fértil ela volta a desabrochar. Era dessa água que eu falava uma vez, quando ofereci uma parte de mim lindamente composta e feita concreta. Era dessa água que bebi quando me foi ofertada abundantemente, ainda que involuntariamente, e eu consegui, pela primeira vez em tantos anos, lembrar exatamente como eu havia sido há muito tempo atrás, mas que me dá a impressão que amanhã ele vai recomeçar e nada disso que passou teve valor, era como um meio pingo d’água na eternidade.

Mas agora, ainda um pouco atordoado e acumulando mais pedras enquanto tento caminhar em linha reta, aos poucos estou deixando de me importar novamente. Todo o fracasso e humilhação chegaram a um estatuto que me arrancaram as forças para afugentá-los ou fingir que são fantasias. Eu não me importo. Eu sigo sem dar valor ao que sempre dei e olhando para o nada com a certeza do nada. Querer sempre foi minha fonte maior de frustração. Não quero mais. A qualquer vislumbre de vontade, arrancar do cerne da hipótese sua matriz fundamental e enxergar o real cada vez mais intensamente. Eu quero o real do que posso encostar. Estou exausto.

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Acho que não consegui passar o que queria tão a fundo como estou sentindo. Mas estou sem vontade também de tentar me espremer mais. Como se não houvesse pensado nisso o suficiente, quero tentar seguir. Eu amo este blog, estas paredes pretas e esses pingos brancos, como se fossem uma luz, como se eu fosse todo esse blog e meus textos fossem pequenos focos de luz que saem de mim, tentando me resgatar. Já que ninguém parece conseguir fazê-lo, nem eu mesmo. Só queria saber porque para todos é tão simples, estou desejando coisas horríveis neste momento, apesar de me considerar uma boa pessoa. Vou parar agora, não quero mais sentir isso.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Bipartido

Quando fui dormir, não foi porque necessitava, mas porque estava cansado um pouco além da conta de tudo ser um ciclo. E minha voz não era tão ouvida quanto falada, atendendo a requerimentos. Sentia em cada pedaço as humilhações desse tempo, os erros, as enganações. Toda uma imaginação gerada por dentro, mas ao estímulo externo, algo incrível. Eu nunca imaginei que esse processo fosse real. E um pouco cansado também de estar espremido tanto emocionalmente, mas agora também fisicamente. O esforço que demanda é infinito, mas me fiz inconstante ao ponto de me ferir no mesmo espinho diversas vezes. E a mesma pergunta. Toda essa situação me fazendo extrair o pior de mim mesmo e olhá-lo, quando o melhor se dissolve e mais abundante. Se assim é, por que permanecer incólume?

Eu morri naquela noite.

É que quando acordei e olhei-me no espelho, não me reconheci. Era idealizado, e a cada imagem que eu percebia em meu caminho, sabia todas as reentrâncias musculares que as compunha, eu era em meu cérebro cada rosto que aparecia. De repente, transformei-me em diferentes homens, as mais diversas mulheres, crianças inocentes, idosos em mínimo número. Eu era agora a verdadeira metamorfose ambulante e palpável. A felicidade nunca me pareceu tão possível. Corri sem medo pelas ruas, os braços abertos, tomando todos os raios solares de uma vez junto com a água da chuva, o vento gelado e a sensação de mormaço não me abafava mais. Aquele dia proliferou mais do que toda a minha existência.

Ao terminar o dia, nos finais de semana, nas férias eu não sabia mais quem era, tantas eram as experiências que conseguia criar. Percorri uma infinidade de corpos em tantas vivências. Eu soube o que eram todas as sensações físicas do universo. Sabia o que sentiam todas as multiplicidades, eu era um arquivo vivo de sentimentos e sensações. Eu estava quase completo. E nessas andanças, percebi como fazer para aumentar o tempo que me dedicaria a saciar meu novo hedonismo. Saí às ruas exercendo toda a beleza capaz de projetar e a mim vieram tão facilmente os produtos dessa vida pragmática, era tão simples como os efeitos mundanos eram equacionáveis e seus resultados previsíveis, calculáveis, sistemáticos.

Livre de mais essa tribulação, a necessidade material, eu passei a esbanjar o meu tempo entre saciar-me e conhecer o novo que, em breve, não mais seria novo. A incrível capacidade de adaptação do ser humano por vezes é traiçoeira, pois nos motiva sempre a uma insatisfação, mesmo quando não há mais atrás de que ir. Mas as possibilidades para mim eram agora infinitas e poucos anos não poderiam ter esgotado tudo o que eu tinha a vivenciar. Viciei até a última matéria orgânica de que sou composto em prazer e fiquei cego, atordoado pela espuma vigorosa.

Mas por ter me esquecido da dor, passei a ocupar, à noite, na margem da sombra alheia, formatos que sujeitassem o avesso de meu idealizado patamar e forcei-me a ser por um momento esses formatos, não apenas igualando-os ao que havia feito durante esse tempo de milagres. E a cada palavra, a cada olhar, eu aguçava minha mente para entender algo que eu mesmo fizera e havia obliterado, como se tivesse tal direito. Era como se meus braços e pernas não mais existissem e eu me movesse graças a aparatos tecnológicos que implantei nas cavidades sangrentas. Eu não existia mais sem eles, não podia desvencilhar-me da vida da qual era parte simbiótica.

Mas, depois de alguns dias, eu não sabia mais o que fazer com o prazer, ele não mais me instigava. Eu fui até o espelho e o que vi foi inexplicável. As memórias abafadas de minha morte me diziam agora claramente, como a imagem bela no espelho do que eu era na noite em que fechei os olhos para sempre. Naquela noite, sonhei com a imagem do homem que acordei sendo. Mas e antes? Eu não conseguia compor os traços até quando os vi no espelho. Eu quis ser aquilo e não conseguia formá-lo. Eu não tinha o direito de ser eu mesmo novamente.

O que fazer quando já se tem do tudo e do nada? Foi quando não deixei meu quarto luxuoso por uma dia inteiro. Procurei por fotografias minhas, mas tudo relacionado a mim enquanto vivia no singular havia desaparecido, perdera-se no tempo em que me mantive suspenso. Procurei pela internet, a todo o momento alguém queria parecer se importar com a minha repentina ausência, mas ignorei a tudo, eu apenas fixei meu pensamento em uma época longínqua quando nenhuma daquelas pessoas eram reais.

Por senhas e páginas antigas, pessoas e eventos submersos, ao final do meu suspiro, deparei-me com uma imagem que me deu um sono profundo. Minhas emoções atingiram um nível que eu até então desconhecia e perceber-me ausente de alguma sensação condensou minha ainda incompletude. Eu traí a mim mesmo na suposição de estar acima do universo. Cambaleei até a cama e adormeci.

Sempre ao espelho, como se quisesse me certificar do que eu era. Eu sabia que havia recobrado o eu primogênito. Havia uma certa opinião de mim mesmo neste momento tão mais distanciada. Corri à rua, estava um dia fortíssimo, sentei-me perto da praia e observei por um dia inteiro esse mar maravilhoso, as pessoas passando a minha volta, vivendo alheias a seus próprios conflitos em nome de serem felizes. Em uma abnegação de si tão sublime e eu me lembrei que da forma como estou nunca fora capaz de realizar tal feito extraordinário e tão reles para qualquer ser humano.

Ao passo que a noite se chegava, consegui encontrar-me, não sei se no mesmo dia, com alguma boca, mas desta vez uma pessoa inteira. E o sentimento conjunto, passando pela ponta dos dedos, envolvendo cada movimento não-planejado, afogando todos os sons a volta, em um contínuo de palavras há sempre entaladas. Como em uma explosão nuclear, sem nenhuma esperança e premeditação, o tempo em espirais intensas, naqueles segundos, tudo congelado. A não-necessidade de qualquer pensamento, um alívio de poucos instantes, como a formulção da primeira molécula de uma gota d’água que em breve cairá em um rio que desaguará em um oceano. Ao conseguir tornar físico anos de imersão abstrata, meu corpo finalmente conseguiu o descanço que tanto almejava e julgava haver conseguido.

Não se sabe ter terminado algo até que se tenha de fato. E como saber se desta vez foi, de fato, concluído? Eu adormeci novamente. Eu não estava sozinho, como achei que estaria ao final desta história.