domingo, 23 de outubro de 2011

Epifania

Impossível preencher o futuro sem dispensar um pouco do passado que tenho na boca. Eu já sei disso. Mas qualquer fino segundo que tenha passado a ser passado é saboreado com muito mais gosto pelos mínimos botões gustativos espalhados pela língua envolta em areia. A areia é o que resta do tempo perdido, já desmanchado em mil fragmentos, mas sólidos, ainda me sufocando. O ar passa com dificuldade, mas lamber, atravessando arduamente a parede arenosa, meus dentes e minha língua em contato com a pele, sentindo o gosto do passado. É o passado feito vivo, É a transformação que eu sempre quis.

Como se não me bastasse você enfiar suas artérias por dentro da minha pele, rasgando o tecido e se enrolando em meus vasos sanguíneos, tornando-me uma parte infinitamente dependente de seu corpo, você ainda consegue esse milagre. Por que você é assim? Por que quando eu estou suspenso, respirando a brisa mais cálida, ou me afogando em meu próprio pântano particular, você sempre está lá, sempre com sua mão gigante, mesmo que não queira estar, mas você se força a me enxergar, se força a ser a pior pessoa do universo na sua concepção só para estar um segundo que seja perto da minha dor. Você sente a minha dor mais do que eu mesmo. Deixa eu senti-la sozinho dessa vez.

E quando eu sinto meu sangue fluir com fúria, meu corpo incha em infinitesimais proporções e eu me sinto melhor do que eu sou, por você, e eu consigo respirar com o ar que você debruça na minha boca aberta com a sua presença pulsante, devolvendo o peristaltismo para meus órgãos cansados e eles são novamente comigo uma máquina perfeita, movimentando-se toda em conjunto, seguindo o seu ritmo, em sincronia perfeita, perfilando meus sentidos. O passado que eu tanto almejo, você o traz em você agora e você é o que eu mais desejo. Tudo em você me é familiar, nossos átomos em uníssono, de todos os seus poros, meu suor vaza discreto como sendo você que o sente. Estou com frio, aqui onde estou é inacreditavelmente frio.

E eu sou como o prédio mais alto da cidade. Eu não sou menos que o sol que ilumina a tudo onde se sabe e não sabe. Minha mente atravessa não apenas o que eu conheço, mas também o que ainda vou conhecer e eu não esqueço um segundo que se passou em minha vida milenar. Meu rosto não conhece a dor e mesmo assim eu me abaixo, me curvo, me desapareço debaixo de você, engolido por tudo o que você me faz sentir quando está do outro lado do mundo, vivendo o que eu sempre quis como eu sempre quis. Eu sempre quis o sofrimento, eu sempre quis a dor de querer algo que nunca teria. E isso foi a todo o custo.

Mas morrendo, me desfazendo de tudo o que está enroscado em mim, meu corpo todo doente de você, eu percebo que é a forma mais natural de matar algo feito para não morrer. Basta que se assopre e ele ressuscita, e tudo vira o que era antes. O passado feito presente. Meu sonho viraria realidade e eu teria tudo. Eu seria grande e tudo o que se pode ser! Minha vida em romance e filme nacional. E os dias são estranhamente diferentes de tudo o que eu já vivi, a liberdade me oprime como eu nunca imaginei que fosse. E você ainda está aqui, carregando todo o meu peso por mim. Mas o mais que pesa agora dói demais, eu aprendi a levar tudo sozinho.

É como entender o amor. Eu. Eu amo. Eu amo você. Eu te amo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Iluminação

Nas vezes em que te vejo, eu me despreparo de qualquer coisa passível de adjetivação. Por pequenos descuidos, então, nos encontramos um pouco mais além, mas nada condenável. Nós somos o que se procura como objetivo de vida sem saber de toda a dor da responsabilidade. Minha mente liberta, sem qualquer espectro de qualquer lembrança, mas, estranhamente, basta eu sentir, ao longe, bem no imperceptivelmente longínquo o ar que sopra quando a navalha corta, tão rápida, para que eu esmoreça por dentro e queira voltar à minha natureza. Mas você me impediu antes e eu nunca vou além de mim. Mas você não sabe disso. E eu não sei provar para você que não podemos mais brincar com o tempo. O tempo é meu maior inimigo e eu não aprendi a entendê-lo.

Entrevejo na singeleza de um gesto uma força extraordinária que clama por uma lufada de qualquer sentimento mais sincero e puro. A pele já calejada e ralada que implora inconsciente por um toque mais macio que a lembre que a vida não está intrinsecamente podre, intrincada em sequências de desastres involuntários. Quando você vai perceber que tem nas mãos as chagas causadas por lâminas que saem de seus próprios dedos? Eu sou uma rocha, deixe que eu fique aqui e não sinta nada por você, deixe que eu fique aqui e seja a mesma coisa que o ar que não se respira, deixe que eu seja uma rocha vulcânica já resfriada, meio enfiada na terra, um pedaço para fora, onde só a chuva consegue alcançar. E todas as minhas certezas são represadas dentro dos cristais que tenho por dentro, um pouco frágeis, tentando eclodir. Mas você me impediu antes e eu nunca vou além de mim.

Eu amo a chuva. Sempre imagino, quando vejo uma janela pelo lado de fora, como deve ser o interior daquela casa e como deve ser olhar para essa janela pelo lado de dentro num dia chuvoso, assim, de tarde. Isso me dá uma sensação tão boa. O barulho da chuva e você, um pouco como que ,inesperadamente no meio de um sem princípio, estivesse sem qualquer equipamento, sem qualquer marca, estivesse sem qualquer lembrança. Apenas o que você é e o que seu corpo é de verdade. Só isso e a ausência dos... As palavras me traem neste momento e eu sou pouco para entornar meu sentimento mais autêntico. Eu quero a infalibilidade das palavras. A ausência dos percalços que nos transmutaram as opiniões e crenças, desvirtuando-nos, talvez, de nosso destino já traçado por cartas e figuras inexplicáveis. Apenas você. É isso. Você. E assim poderia germinar o que eu apenas sei. Eu não me afogo em desespero, eu não falo nunca o que desejo e nem meu corpo se desvela segundo meus sentimentos mais profundos. Eu sou uma torpe superposição de impulsos paradoxais, a maior coragem do mundo encerrada num corpo tetraplégico. Eu observo a sua simplicidade com um sorriso e guardo um pedaço dela entre os dedos, desejando que você me dê a chance de arrancar outros mais.

Quando você falseia o que mais deseja, eu ambiciono tachar o medo que você cultiva de imaturidade. Julgando-me exacerbadamente forte, debalde caem por terra meus planos de auto-libertação. Do que eu preciso me libertar? Da certeza de que preciso me libertar? E começar pelo ponto mais simples? A aceitação. Eu aceitei você em todos os seus recônditos após árduo processo interno ainda infindo. Por que agora me sinto falho ao ter aceitado? Era a luta que eu devia ter travado? Eu quase travei... Eu cheguei a desferir poucos golpes. Mas você me impediu e eu jamais consegui ir além de mim.

Eu sei de algo perfeito. Eu sei de algo que eu faria perfeitamente. Eu precisava de um elemento e ele está aqui, ele pulsa, ele anseia, ele é o que eu havia esquecido em alguma intersecção na linha do tempo. Mas ele está aqui. E me faz sentir extraordinário. Apesar de tudo. Apesar de tudo. Mesmo sem perceber, mesmo sem tentar, mesmo com tudo o que me arranca, eu me superei. Dei um passo além de mim.

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Foi tão difícil escrever isso. E de modo algum é o que deve parecer. Eu não sei o que parece, pra mim é o que é, afinal de contas. É como se eu quisesse ter escrito isso ontem, mas não consegui. Eu não estava com o sentimento amadurecido. Parece idiota falar de 1 dia de amadurecimento. Mas não é isso, são coisas. Eu vejo tudo com outros olhos, olhos diferentes do que parece para todo mundo. Eu tenho certeza que eu chego em casa depois de uma saída e todo aquele dia tem para mim uma impressão completamente diferente da que teve para todo mundo. Pois é, depois de algum tempo e várias saídas, todas as impressões formam alguma coisa. Eu preciso dormir.

sábado, 15 de outubro de 2011

Interrompido

Quando meu tato falha, geralmente sou levado a deixar-me levar e levo o tempo que se alastra ao redor de mim para novamente voltar a perceber. Um minuto se perpassa infinitas vezes dentro de si mesmo e são horas, horas, meses, meses, o infinito. Um infinito circunscrito de onde lanço meu próprio braço para erguer-me das garras de madeira, seus dedos ossudos, pontudos e afiados, perfurando minhas roupas, mantendo-me preso ao chão. Ao recusar-me, eu estava pondo a prova o meu mais inabalável sentimento, ou a forçação dele. Ainda assim o havia tornado de certa forma palpável antes de anulá-lo.

De repente o mal eclode em inominável. Perdi toda a vontade, tudo, de uma vez. Não sei o que sinto, nem se é bom, nem se já senti. Estou uma lâmpada queimada num quarto de noite, as janelas e portas fechadas. Apenas o que não se move está aqui.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Projeção

Estou constantemente colocando a mão por dentro de minha boca e puxando o que encontrar que toca o coração, vindo de cada vaso do meu corpo, misturando os elementos químicos que me definem. O epicentro dessa confluência guarda o que sou. Se eu pudesse desmembrar o altar, se eu conhecesse a fundo todas as reentrâncias do meu corpo, se eu soubesse o que há e como se processa tudo o que explode onde eu posso ver. Eu só percebo a explosão, e o que eu faço para alcançar a origem?

I couldn’t have been misguided when perceiving all I felt surrounding me. My spine bent in awe, myself holding it all against my will to believe it, but having it all been so accurately drawn... It just couldn’t have been another deviant experience. But for finally going against my being sure about the outcome, I pay the price I’ve gotten used to paying, and it smarts nothing to anyone. They look, they think, they laugh, they sadden, but they always go back home and sleep afterwards.

Finalmente me opus a mim mesmo neste ciclo de certezas.

Esbaldando-me em abraços, sinto de leve o correr dos dedos, tocando cada pelo, sensibilizando cada poro. Por dentro, os reflexos límpidos de tudo o que o exterior percebe. O corpo, avisando de dentro a emoção dos lábios ao serem mais um vez reanimados. Pequenas gotas de sensações mútuas se misturando, se identificando no entrelaçar de qualquer parte, a força da respiração ausente de estar viva e, finalmente, vivendo, agora, sendo o centro da existência. Os olhos não conseguem deixar de notar cada fragmento dessa beleza inexplicável. E todas as palavras que se antecederam a esse momento o fazem uma ilha cercada por ideias, percepções de trejeitos e modos, cercada de situações risonhas e momentos de silêncio, de ausência pungente e plácida presença. O correr das mãos, querendo aquilo que tem neste momento mais profundamente, querendo mais do que o querer engloba, as mãos em desespero contagiante, querendo conhecer além do toque. Uma vida inteira pautada no que acreditamos que somos, agora provando para nós mesmos que somos o que não encaixa onde todos estão deitados, confortavelmente sorrindo em seu sono profundo. Por que estar desperto agora soa tão leve? O sono não devia ser o alvo de todos?

Enquanto nos fazemos mais humanos, todos os seus traços vividamente estampados na minha imaginação seguem sendo exatamente perfeitos. Nossos corpos, assim, imperceptíveis, neste momento, inconcebíveis como elementos distintos, foram feitos para este instante no qual não sabemos como será o próximo segundo. Nos envolvemos como há bilhões de anos, quando surgimos, nos conhecendo a cada novo encontro na espiral do tempo. Um milésimo que pulamos na contagem das horas, quando conseguimos ver e sentir a vida toda de uma forma idêntica, nossos olhos sendo dois olhos, nossos cérebros sendo um cérebro, nosso sangue misturado, conservado dentro de nós ainda, ele passa por entre nossos beijos, banhando tudo por dentro.

O tato percorre cada recôncavo, a língua perpassa cada canto, explora cada pedaço, o interior permanece imiscuído em cogitações. Não precisamos preencher todo o íntimo de nós mesmos e nem um do outro. Todos os planetas de repente ficaram frios e hostis. Todo o universo apagou-se e virou uma nota rasgada. Eu busco o que está ao meu lado, com um sorriso no rosto, com a respiração ofegante, o suor escorrendo, os olhos abertos e fechados, as mãos tateando por carinho e procuro ser parte desse cansaço, parte dessa necessidade de não mais ter o que fazer o resto do dia inteiro e ficar ali, deitado por quanto tempo ainda restar, sentindo a indiferença do mundo e sem conseguir vislumbrar coisa alguma.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Declaração de Amor

Ele se expande aos que podem “se dar ao luxo da calma”. Todas as perguntas respondidas, a placidez de um acolhimento profundo e indefinidamente capaz de tocar os ombros, acariciando o pescoço, os braços de repente tomando o corpo todo para si. Sem precisar entender, o corpo todo enfraquece e, esmorecendo, ele desaba, deitado por fim, nesse embalo holístico. Entregar-se ao abandono de si mesmo requer a plena confiança, mas, tal qual um cheiro lembrado, a insensibilidade dessa vaga crença provoca um atropelamento de perguntas. A viagem ao redor do universo nos centra no que é periférico, no aparentemente inútil. Nunca permitir que o olhar seja nublado pela vida medíocre, que se faz a realidade, que se esfrega sempre em frente a pensamentos.

Ele oferece-se por inteiro, abraça com forças infinitas apenas tudo que por Sua bênção clama. E que clamor. É o que Ele deseja? Como saber se está no caminho que Ele traçou. Foi traçado? Eu me baseio no livro que escrevi há um segundo e no próximo parágrafo que estou fazendo agora. Então não foi Ele que escreveu esse livro através de mim, Sua criatura? E esse outro? Se não foi Sua mão fantasmagórica e gigantesca, que humano pode ter tido a petulância de evocar linhas vindas de Sua boca? Sua voz provavelmente destrói tímpanos, queima olhos, dizima existências falhas.

Eu acredito nunca tê-Lo ouvido. Mas na criação da qualquer coisa que somos, um pedaço dEle, jogado por dentro de nossas bocas ainda grudadas pode nos manter ainda Sua propriedade. Qualquer desvio - Não estou certo se assim Ele os fez - Ele o saberá. E o que se segue a isso? Iluminuras tem meu rosto. Eu vejo a multiplicidade em tudo o que encontro, pego-me arrancando-O de dentro de mim, qual violência Ele se utilizou ao forçar-me para um mundo criado secretamente, instigado por Seu plano e ordem perfeitos, mas furtivos. O que me não é dado compreender me fascina pela forma aquosa, de uma beleza superior ao planejado. Mas a frustração do fracasso pesa tal como. No fim, não me é lícito livrar-me do que me conecta a Ele e eu imploro para que Ele me responda, para que Ele exista como eu existo. Por que Ele não se iguala a mim por um segundo? Mãos, olhares, bocas e rugas destroçar-me-iam ante a iconoclastia, mas não me perscrutam a motivação. O vazio das atitudes fere minha estima de melhora, faz da esperança uma bola oca de madeira. 

Todos os sofrimentos proliferados ante a decisão de se fazer universos, de se gerar vidas, de se falsear a realidade. O que eu tenho ao meu alcance, toco e não estou certo se é ou não a verdade. A verdade, para mim, é o que sinto. De razões imprevisíveis, as raízes tão profundas e entrelaçadas que não se pode distinguir princípio e fim. Minha verdade está em alguma dessas intersecções ou apenas no fato de elas existirem. Mas de que Ele participa? Ele, que se mantém oculto pela surdez e desculpado pela intuição, Ele que se esconde através de palavras e se acolhe na propriedade com a qual Dele falam, esbravejam, condenam, matam, impõe, justificam, comandam, punem, rotulam. A punição é tardia, a imensidão inalcançável de flagelos já é epidêmica.

E por mais que eu faça votos de nunca mais me voltar para Você, sempre algo me puxa de volta e eu me pego com o pensamento tão distante que é impossível crer que era eu mesmo que estava há um segundo totalmente contra tudo e contra todos. Mas, se Você concordar comigo, não suporto a forma como eles dividem tudo em dois, como se permitem refastelar em insuficiências acolchoadas moldadas por eles mesmo, moldadas por outros para eles e totalmente preparadas, nenhum esforço envolvido. Apenas deitam e são felizes. São autênticos? E por que eu preciso de mais? Por que eu preciso que Você seja um comigo? E por que sinto às vezes que sou um minúsculo fragmento de grão que ainda não conseguiu aceitar essa felicidade imaterial baseada em cegas sabedorias pré-engendradas no subconsciente de quem prefere não voltar para si? A dor excruciante não é encarada como benigna, como recompensadora. Eu sei que Você existe, eu Te amo, mas eu não confio em Você.

E aquele aleijado ali do lado, sujo de tudo, com um pedaço de comida na mão imprópria para meus padrões olha para cima e eu entendo que nos olhos dele há gratidão. Eu sigo em frente. A dor vazia mais aguçada do que nunca.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Iminência

Por que eu sei?
Uma ultra-sensibilidade não seria capaz de apreender mil quilômetros de distância, então os sinais se propagam sem contato, mas infimamente distantes. E se eu novamente me forçar para dentro do idílico santuário de verdades absolutas? Suas paredes de cristal muito fino e transparente fazem dele uma profusão de sensações seguras. Eu deixo escapar por segundos que estou nele, mas você não notaria.

Em sua idônea existência, você nunca deve ter-se deixado perceber pelas mil farpas que cultivamos tão gentilmente ao redor. Agulhas recém-emersas do veneno grosso de bocas desdentadas relam por sua pele mansa incapacitadas de adentrar o corte. Eu vi. E descobri o quanto me fascinou a aparente loucura de estar em hostilidade e, talvez por ignorância, não se importar muito. As agulhas que eu fabriquei, mantive-as perto de mim o tempo todo, talvez por vergonha, talvez por medo, mas com certeza por egoísmo.

E pode ser que eu nunca mais esteja diante de tal leveza, de tal raridade. Eu que sempre busquei o autêntico. Eu consigo vislumbrar o tudo que se seguiria a um primeiro sucesso, está tudo claro, límpido, ofuscante em minha mente como se fosse real e palpável e o que é essa enxurrada que me opõe? Eu ganhei sobre mim novamente, mas desta vez, como das outras, definitivamente? E se eu atirasse para o ar? No escuro eu acertaria? E se eu não tiver que acertar?

Por voltar a mim sempre que os olhares se abrem, por mal-interpretar o que quer que seja para o meu bem, por erguer pilastras em solo fértil... O toque. Apenas o toque por entre um corredor de ventos pesados atingiria o inenarrável, mas eu o sublimo novamente e ele não quer ser sublimado. Ao que me atenho está, na verdade, sem resposta, está em aberto, está virgem. Mas eu já o antecipei por ele e ignorante de si mesmo. O meu orgulho é infinitamente superior. Vomito sentimentos em minha prisão estratificada, que apodrecem um por cima do outro e se configuram de acordo com meus desígnios inconsequentes. O que eu almejo afinal? No que se baseia a raiz do pensamento? Para onde quero me conduzir? Por que todas as atitudes que me movem para mais evocam a sensação que tenho ao mergulhar meus dedos nessa massa vomitada encarcerada? Eu a remexo para no fundo alcançar algum resquício da origem deste sentimento, de algum deles, uma pequena pedra com mil cores, alternando-se, muito cintilantes, dentro de minhas mãos cerradas.

Eu não sei bem o que fazer com ela.
Fico então sentado, sem coragem de fitá-la, com as mãos fechadas, uma contra a outra, segurando esse fragmento que exala feixes de luz por entre as brechas de pele sobre pele. A emoção me toma e, por um segundo, eu não me importo com “o que devo?” É um pouco de você que me faz sentir assim também, de longe.
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Acho que no próximo escreverei sobre Deus. Estou melhorando aos poucos comigo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Digressão

As peculiaridades se amontoam como sendo vitais, elevando os níveis de fogo derretido, se esgueirando pelas paredes um pouco desgastadas de tanto serem raspadas pela força que tudo faz ao se arrastar por elas. O tremor se alastra suavemente, imperceptível, movendo sem controle, articulações involuntárias. O som despenca e se tropeça, sílaba por sílaba, por dentro arredondadas, mas recobertas de irregularidades. Elas têm a função de retalhar, vindas de um calabouço deserto, recoberto de mofo e dejetos, cheirando a sufocamento, emplastrado de saliva e bílis e restos, pequenos pedaços. Todo o corpo sentiria queimar-se se estivesse consciente de si. O sangue que vaza dos cortes no corpo atingido respingam e alimentam o cérebro, suas funções parcialmente restauradas. A autodefesa está em afagar-se. A autodefesa está em saber-se o suficiente para si próprio, em chegar em primeiro lugar no topo e olhar para baixo. Por que pode-se ver todos correndo lá embaixo? O ar ao redor como uma nuvem inteira de oxigênio acariciando mãos imóveis pela beleza do arredor. Os raios de sol, ao longe uma vista impessoal e estupenda. Lá embaixo, todos querendo subir, alguns pisoteados, outros sem saber a direção, alguns dando a vez, outros matando por um espaço. Consigo sentir nas pontas dos dedos a angústia de cada um e simplesmente esfrego essas pontas, me livro e olho para cima. O céu límpido me conforta por estar em união comigo. Um suspiro me enleva. Mas eles, lá embaixo, então se mesclam em brumas, olho para frente, estou diante do sangue, a cor não me parece definida. Mas não há nada mais.
           
Na busca, desintegrei aos poucos o que me conecta a uma unidade. Palavras são apenas palavras, vida é apenas vida, mas por dentro está a razão. O dedo que força para fora toda a podridão da carne, e olhar essa podridão feita real, ela está ali, flutuando e sendo matéria e o alívio de ela estar fora, mas o sofrimento de saber que ela tem a sua fonte que caminha, agarrada a qualquer lugar interior não-preciso. E detectar a fonte seria libertar-se dela? E dizimá-la, como uma busca pelo vírus, é a resposta? O que esperar após abraçar uma criatura feita sem braços? A espera se finca nos lábios, sempre prensados contra nada na esperança que ele se transmute em quietude. No final, agarrar nada será sempre nada. E o fogo derretido acaba por derrubar-se e empapar toda a carne, só para se esconder e depois voltar a ser produzido. Os olhos, os ouvidos, seus elementos catalizadores.

Como antes, eu preciso ver um pouco de sangue, ele me lembra do que sou. Mas não me leve a mal, eu não sou tão simples, eu não tenho objetivos tão claros. A morte não me atrai. Ela não me responde o que preciso saber.

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              Outro dia, encontrei coisas que escrevi no início de 2004 e meio de 2006, ou seja, com 18 e quase 20 anos, sendo a primeira uma idade muito importante para mim. Logo quando eu havia dito que queria ainda ter esses escritos. A maioria se foi, mas restou o suficiente. Agora o que fazer com essas descobertas sobre um eu já falecido? O que descobri de mais importante é que ele não faleceu por completo quando deveria. Algo dele ainda está passeando por mim e essa pode ser parte da resposta. Mas ainda não li tudo, não consegui assim, de uma vez só.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Inexorável

Agora, sentando meio reclinado e daqui a meio segundo novamente quase caindo para frente e de novo para trás, por horas, estagnado, pouso a atenção em minhas mãos que presenciaram tantos dias e noites. A pele, já quase desfeita, um pouco enfastiada de ser pele ainda, com marcas ao redor, pequenos pelos brancos aqui e ali. Meus olhos já não a percebem em tantos detalhes, mas a sinto assim, sinto-a tão em tantos níveis, a pele que não é mais como fora.

Mas o que sempre me desfez, agora não me atormenta mais, sinto-me confortável, sinto-me acomodado. Estou o que sempre nasci para ser e nunca mais preencher as minhas expectativas sobre mim mesmo. Agora não há expectativas, não há cobranças, meus medos e traumas, minhas opiniões e paranóias se adequam como nunca antes. Eu não busco voltar, estou onde sempre estive, mas mais autêntico do que nunca. Todo o nada faz sentido, a inércia é esperada, a ausência é mais do que apropriada.

Por que não sempre fui assim? Nunca estive tão perto da certeza da minha felicidade. Ela está há menos tempo de distância do que nunca. Eu me emociono, e desta vez não tem como ela não ser e será sem ser forçada, sem ser chamada. Será, porque é inevitável, é plena e também súbita. Neste momento, porém, devo ser o mais forte para não me antecipar e ir a ela, que venha, que me cubra e desfaça toda essa feiúra na qual imergi para me salvar... Com o tempo.

Nenhuma atenção, como antes, mas agora é justificável. Fracassar, como antes, mas agora nunca se pensaria de outra forma. Minha vida segue sendo o que tem que ser e pela primeira vez é tudo como deve ser. Eu recostei pela última vez. É improvável que eu consiga, mas, afinal, nem ligo mais. E não há nada para fazer hoje e nem amanhã e nem na semana que vem, muito menos mês que vem. E a deliciosa dúvida se haverá um ano que vem.

sábado, 1 de outubro de 2011

Efêmero

É exterior a minha vontade.
A eletricidade aproxima-se por qualquer brecha
e torna-se o fio condutor
de impulsos e

redireciona olhares,
guia gestos,
comanda movimentos,
cerceia exposições violentas.

Toda a pasta que cobre essa coisa que nos move
vagarosa, arrastada, oblíqua,
toda ela se desfaz, a mente por si só.
Apenas poucos sons,
apenas um milésimo,
um som,
um erguer,
um...

total se formando a partir de milhões de células adormecidas há milênios
debaixo de todos os continentes dentro de mim
irrompe e espreita na velocidade da luz, se firma
e se cala,
adormece,
reclina,
relaxa,
des-existe.

Passo ao que era antes, uma fórmula química ambulante,
refinando cada atitude na mais pura virtude,
esperando, tanto quanto for, portanto,
esse foi apenas uma faísca percebida como raio elétrico.
Ele simplesmente, aleatoriamente, despreocupadamente

aconteceu por aqui.

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E faz o que? Anos que eu não escrevo um poema? É, uns 10 anos. às vezes eu queria ter tudo o que eu não tenho mais, todos os que eu joguei fora, que eu destruí em momentos meus, meus "emotional stunts". Eles eram péssimos e infantis, eram. Mas eles eram o que eu era, eu era aquele sentimento e agora? Foi ótimo ainda conseguir fazer um poema, mas tão diferente... Tão, mas tão. Ainda não me precisei.