sábado, 21 de janeiro de 2012

Bipartido

Quando fui dormir, não foi porque necessitava, mas porque estava cansado um pouco além da conta de tudo ser um ciclo. E minha voz não era tão ouvida quanto falada, atendendo a requerimentos. Sentia em cada pedaço as humilhações desse tempo, os erros, as enganações. Toda uma imaginação gerada por dentro, mas ao estímulo externo, algo incrível. Eu nunca imaginei que esse processo fosse real. E um pouco cansado também de estar espremido tanto emocionalmente, mas agora também fisicamente. O esforço que demanda é infinito, mas me fiz inconstante ao ponto de me ferir no mesmo espinho diversas vezes. E a mesma pergunta. Toda essa situação me fazendo extrair o pior de mim mesmo e olhá-lo, quando o melhor se dissolve e mais abundante. Se assim é, por que permanecer incólume?

Eu morri naquela noite.

É que quando acordei e olhei-me no espelho, não me reconheci. Era idealizado, e a cada imagem que eu percebia em meu caminho, sabia todas as reentrâncias musculares que as compunha, eu era em meu cérebro cada rosto que aparecia. De repente, transformei-me em diferentes homens, as mais diversas mulheres, crianças inocentes, idosos em mínimo número. Eu era agora a verdadeira metamorfose ambulante e palpável. A felicidade nunca me pareceu tão possível. Corri sem medo pelas ruas, os braços abertos, tomando todos os raios solares de uma vez junto com a água da chuva, o vento gelado e a sensação de mormaço não me abafava mais. Aquele dia proliferou mais do que toda a minha existência.

Ao terminar o dia, nos finais de semana, nas férias eu não sabia mais quem era, tantas eram as experiências que conseguia criar. Percorri uma infinidade de corpos em tantas vivências. Eu soube o que eram todas as sensações físicas do universo. Sabia o que sentiam todas as multiplicidades, eu era um arquivo vivo de sentimentos e sensações. Eu estava quase completo. E nessas andanças, percebi como fazer para aumentar o tempo que me dedicaria a saciar meu novo hedonismo. Saí às ruas exercendo toda a beleza capaz de projetar e a mim vieram tão facilmente os produtos dessa vida pragmática, era tão simples como os efeitos mundanos eram equacionáveis e seus resultados previsíveis, calculáveis, sistemáticos.

Livre de mais essa tribulação, a necessidade material, eu passei a esbanjar o meu tempo entre saciar-me e conhecer o novo que, em breve, não mais seria novo. A incrível capacidade de adaptação do ser humano por vezes é traiçoeira, pois nos motiva sempre a uma insatisfação, mesmo quando não há mais atrás de que ir. Mas as possibilidades para mim eram agora infinitas e poucos anos não poderiam ter esgotado tudo o que eu tinha a vivenciar. Viciei até a última matéria orgânica de que sou composto em prazer e fiquei cego, atordoado pela espuma vigorosa.

Mas por ter me esquecido da dor, passei a ocupar, à noite, na margem da sombra alheia, formatos que sujeitassem o avesso de meu idealizado patamar e forcei-me a ser por um momento esses formatos, não apenas igualando-os ao que havia feito durante esse tempo de milagres. E a cada palavra, a cada olhar, eu aguçava minha mente para entender algo que eu mesmo fizera e havia obliterado, como se tivesse tal direito. Era como se meus braços e pernas não mais existissem e eu me movesse graças a aparatos tecnológicos que implantei nas cavidades sangrentas. Eu não existia mais sem eles, não podia desvencilhar-me da vida da qual era parte simbiótica.

Mas, depois de alguns dias, eu não sabia mais o que fazer com o prazer, ele não mais me instigava. Eu fui até o espelho e o que vi foi inexplicável. As memórias abafadas de minha morte me diziam agora claramente, como a imagem bela no espelho do que eu era na noite em que fechei os olhos para sempre. Naquela noite, sonhei com a imagem do homem que acordei sendo. Mas e antes? Eu não conseguia compor os traços até quando os vi no espelho. Eu quis ser aquilo e não conseguia formá-lo. Eu não tinha o direito de ser eu mesmo novamente.

O que fazer quando já se tem do tudo e do nada? Foi quando não deixei meu quarto luxuoso por uma dia inteiro. Procurei por fotografias minhas, mas tudo relacionado a mim enquanto vivia no singular havia desaparecido, perdera-se no tempo em que me mantive suspenso. Procurei pela internet, a todo o momento alguém queria parecer se importar com a minha repentina ausência, mas ignorei a tudo, eu apenas fixei meu pensamento em uma época longínqua quando nenhuma daquelas pessoas eram reais.

Por senhas e páginas antigas, pessoas e eventos submersos, ao final do meu suspiro, deparei-me com uma imagem que me deu um sono profundo. Minhas emoções atingiram um nível que eu até então desconhecia e perceber-me ausente de alguma sensação condensou minha ainda incompletude. Eu traí a mim mesmo na suposição de estar acima do universo. Cambaleei até a cama e adormeci.

Sempre ao espelho, como se quisesse me certificar do que eu era. Eu sabia que havia recobrado o eu primogênito. Havia uma certa opinião de mim mesmo neste momento tão mais distanciada. Corri à rua, estava um dia fortíssimo, sentei-me perto da praia e observei por um dia inteiro esse mar maravilhoso, as pessoas passando a minha volta, vivendo alheias a seus próprios conflitos em nome de serem felizes. Em uma abnegação de si tão sublime e eu me lembrei que da forma como estou nunca fora capaz de realizar tal feito extraordinário e tão reles para qualquer ser humano.

Ao passo que a noite se chegava, consegui encontrar-me, não sei se no mesmo dia, com alguma boca, mas desta vez uma pessoa inteira. E o sentimento conjunto, passando pela ponta dos dedos, envolvendo cada movimento não-planejado, afogando todos os sons a volta, em um contínuo de palavras há sempre entaladas. Como em uma explosão nuclear, sem nenhuma esperança e premeditação, o tempo em espirais intensas, naqueles segundos, tudo congelado. A não-necessidade de qualquer pensamento, um alívio de poucos instantes, como a formulção da primeira molécula de uma gota d’água que em breve cairá em um rio que desaguará em um oceano. Ao conseguir tornar físico anos de imersão abstrata, meu corpo finalmente conseguiu o descanço que tanto almejava e julgava haver conseguido.

Não se sabe ter terminado algo até que se tenha de fato. E como saber se desta vez foi, de fato, concluído? Eu adormeci novamente. Eu não estava sozinho, como achei que estaria ao final desta história.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

- Sim, está tudo bem.
- Tenho observado algumas mudanças, realmente.
- Eu não consigo mais ficar parado. Algo se move dentro de mim e me puxa. Eu contenho um pouco, mas parece que tem uma parte de vontade própria.
- A vontade é apenas sua.
- Eu vivo em comunhão com meu corpo agora totalmente.
- O corpo não é nada. Um invólucro pesado e falho, me enoja.
- Não! Ele é substância de vida feita real, são as emoções palpáveis! O corpo é vontade visível, são pensamentos materializados, a beleza da vida ambulante, a prova da divindade consciente!
- O consciente é a mente. O corpo sem fluido plasmático o que é? Volta aos vermes mais imperfeitos ainda.
- Ele é o fluido tangível. Eu não consigo mais viver ignorando a mágica detrás de tudo isso.
- Mas acho que para você é um avanço. Você sempre viveu com opiniões muito próximas às minhas.
- Estou aprendendo a enxergar tudo. Ainda não me inaugurei.
- Outro corpo não teria feito você chegar até aqui dessa forma. Acho que foi feito o melhor para você.
- Sim. Eu precisava disso. Sei a razão de ter pedido que fosse assim. Entendo mais, mas ainda tenho muitas perguntas.
- Eu não tenho as respostas.
- Mas sabe minhas dúvidas.
- Sei.
- Como posso seguir ainda com as pedras prendendo a minha atenção?
- Se fosse para descobrirmos todas as respostas de uma vez não estaríamos nem aqui vivendo, nem tendo esta conversa, nem nada.
- Entendo. Sinto como se meus pés se movessem lentamente na direção certa, mas cada passo ainda muito vagaroso. Eu tenho conseguido, porém, me aceitar bem-sucedido.
- De fato. Um dia direi tudo o que sinto.
- Você sente...
- Sinto uma infinidade, a pureza dos sentimentos não pertence ao corpo, a essência, o princípio do sentir é extra-corpóreo. Sem isso, você se alagaria em percepções, o real você entraria em êxtase beatífico.
- O êxtase é sempre algo tão momentâneo...
- O do corpo sim.
- Mas tenho algum medo ainda. Posso revirar-me no nada ainda por centênios de minha vida. Sinto como se estivesse placidamente estóico, alheio a contagem dos segundos. E mantê-los é todo o alvo de minhas divagações.
- Todo o tempo interior é precioso. No final, apenas se tem a si mesmo.
- E todo o universo?
- Sai de dentro do meio de nossa cabeça.
- Estou começando a perceber o que me cerca. A força magnética que me mantém. Fico atento a cada rasgar do ar próximo a mim. Temo causar estranhamentos, mas minha intenção é apenas ser mais completo, é trazer para perto de mim sem palavras.
- Um primeiro passo. Mas o concreto é onde está agora.
- Sim. Me perco dessa noção com frequência.
- As obviedades das quais surgem seus questionamentos não são lugar-comum. Quando for só mais um não mais estará em corpo que agora você se apresenta.
- Perderei a consciência?
- Quando ela já estiver entranhada sim. Pode ser que não seja mais necessária em forma tão aguda, tão perfurante.
- E do que me freia tudo isso?
- De erros.
- Não é disso que vem os acertos?
- Para que errar onde sabe-se que é errado? Não há mérito.
- Eu me sinto algo a parte.
- Você é.
- E a compensação deveria ser sublime.
- Ninguém está aqui para ser recompensado com frivolidades. O cerne do sentimento não vem da busca, ele apenas vem. Você pode buscar, mas encontrará o que já sabe.
- Sinto que é importante para mim.
- Que seja.
- Estou um pouco cansado. A percepção profunda de mim e de todo o significado das escolhas e atitudes cavaram fundo um poço dentro de onde eu nem sabia que existia. Como se toda uma biografia houvesse sido rasgada e entalada na minha garganta.
- E como se sente?
- Diferente.
- Um dia, você já foi assim.
- Eu sei. Voltei então?
- Mas não de uma maneira negativa. Nunca se volta igual idêntico. Volta-se melhorado.
- Voltar mas não completamente. Tudo o que falo remete ao passado, pois é meu constituinte inseparável, eu sei, mas sinto ter deixado uma brecha para futuro desta vez, onde eu não via muita razão de ser. Quando salto de mim, tudo parece muito pequeno, todos ínfimos joguetes, peças de um nada. Receio é ter me modificado ao ponto de não mais aceitar nenhum supérfluo, e nem mesmo o essencial por não saber muito o objetivo real disso tudo. Pode ser que não seja necessário, mas, no entanto, anseio.
- É o mais necessário. É a Lei Maior.
- Pode ser que eu não a saiba.
- Sempre soube. Excelso mestre na arte. E seria impossível que este potencial permanecesse transparente. Há lógicas impossíveis, num mar de erros, é só analisar, tão claro é para mim. Para você não?
- Não.
- Por quê?
- As inverdades tornaram-se verdadeiras por repetição. Apesar de eu saber serem falsas.
- O problema é apenas você. Mas nem sempre foi.
- Aceito isso.
- Não delegar a outrem o que deve aprender primeiro a fazer por si.
- E é tão mais fácil fazer por si.
- É. Mas apesar de não mais concordarmos tanto quanto antes, agora minha satisfação é maior.
- Devia?
- Não sei. Mas nem tudo se explica. Já tenho eu que penso como eu penso.
- Essa conversa poderia continuar para sempre.
- E não começou no infinito passado?
- Desde que eu me lembro.
- E por que precisa acabar agora?
- Em algum momento eu absorvi mais do que conseguia aguentar...
- Nada errado com isso. Tudo quer dizer algo sobre nós. E isso diz algo(s) sobre você.
- Você sabe o que me motivou a transcrever esta parte?
- Sei. Mas nem se falou disso... Ao menos não exatamente. Achei que você fosse me perguntar o que eu achava.
- Não, eu já entendi no decorrer. Foi uma ideia tola. Não poderia ser de outro modo.
- Não desta vez.
- Nos primórdios dos tempos, tudo já havia sido previsto?
- Não! Que ideia incoerente...
- Isso me dá certo alívio. Mas, e sobre as vontades que são irreparáveis? de onde elas brotaram como pensamento embrionário? Quais eram as condições que levaram ao lume dessa ideia?

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ao meu ano velho

Na verdade, não se fechou um ano, fechou-se um ciclo. E ao mesmo passo que a verdade é magnífica, é também um fardo de grande responsabilidade. O progresso agora é obrigatório, pois corpo e alma em comunhão não mais aceitam a estagnação tão característica de horas em reflexão. Ao passo que se arranca um pedaço da própria pele, há que se perder alguns minutos lambendo o próprio ferimento a fim de sarar-se, cuidar-se, ouvir-se, libertar-se.

Permitir de uma vez por todas que as inquietudes sejam bem-vindas e que a liberdade oriente a cura dos medos mais profundos, arraigados em práticas comuns do cotidiano, no receio de fazer a vida melhor. Pode assustar um pouco, de repente saltar e não saber onde vai cair, nem como, quem irá encontrar e como falarão. Assim, se o medo que é instinto primário não fosse o que é, estaria eu morto por agora e não haveria ninguém no planeta. Isso porque não tiro o crédito de coisa alguma. Porém, ele não deve suplantar-nos. E Nessa caminhada, em algum momento, brumas conjuradas de um azul espesso e quase negro turvaram obviedades e linhas de raciocínio lógico, naturalmente tão elementares.

Um passo em falso guiado por uma bagagem invisível e o instinto perseverou no cancelamento de tudo o que eu sei existir de real dentro e fora de mim. Os espinhos, provocadores de sensações tão afiadas, agora não passam de um incômodo supérfluo, brilhantemente contornável. O esforço que me guiava, agora soa como prática indispensável feita pela manhã, uma manhã de trabalho. E o alívio de estar vivo, como se memórias fossem feitas de anos longamente derrubados, é o que salta em mim agora mesmo.

Mas palavras apenas são como água. E concretamente tenho conseguido erguer uma muralha, ainda muro, de momentos que me corroboram. Não que eu precise de provas, mas alguns aspectos carecem de veracidade material, exigem que o toque se faça. Todo o meu existir se baseia, porém, e não paradoxalmente  dentro de um escopo milimetricamente designado por mim mesmo. É necessária a construção de barreiras. Sim. Barreiras que sirvam de construtores de personalidade e não de impedimento. De alguma forma eu sempre soube disso, de alguma forma eu não errei quanto a isso, apesar de crer-me errado durante muito tempo. Eu me construí eximiamente e tal labor foi minha obra-prima, justamente a razão de minha queda e crises existenciais. Não mais. Dentro da eternidade, um segundo de dúvida, mas saber-se mais hoje do que ontem não tem preço.

E com o sopro de vida renovado, os objetivos podem ter mudado, ou continuam como de um longo tempo atrás. Isso não tem nome, ainda não foi inventado, talvez ninguém conheça. Eu olho a minha volta e não consigo perceber um lampejo de vontade, mas aos poucos, nas reentrâncias, percebo desejos bem contidos e temerosos, bem infantis ainda e cambaleantes de transformação, de insatisfação. E essa é a jóia mais preciosa dos universos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

No Enquanto

Pela madrugada, farpas invisíveis.
Por mais que eu me rebata, é constante
a paraplegia de limitações intangíveis,
por todos os meus músculos, e além, tornando-se contagiante.

Ninguém ousaria falar frente a minha dor,
Pois que ao senti-la, em tormento, a língua se desfaz,
o grito não tem por onde evaporar e o torpor
dessa sensação excruciante esmaga, uma origem mística,
de há milênios condensados em anos atrás,
vaga, inóspita, fagulhas embebidas em veneno de uma ironia artística.

Embalde compus, de poéticas fibras, uma vítrea redoma
e canonizei uma imagem de mim mesmo em chuvas de pétalas,
admirando-me a pureza, de tão alto, de sublimes qualidades uma soma.
Inabalável estrutura e complexos compostos cerebrais, formando
tão inigualável obra-prima de altivez e hombridade excelsas,
cego por seus auto-clamores, ao toque de si próprio, tombando.
Eu me vi em pedaços, obrigado a curvar-me para reconstruir-me.
A humilhação de não ser inteiro, os sentimentos escorrendo em terra firme.

Eu corto em um braço e arregaço a pele com os dedos,
quanto maior a ferida, mais ela é o eu mais sincero,
mais ela diz de mim, mais ela afaga meus medos,
que adormecem, então, um adormecer singelo.

Tudo um ar tão presente, embora o mesmo espectro
de um passado enterrado, o cheiro do cadáver entorpece,
como se diariamente vivesse em retrospecto,
dia após dia se torna um passado, amalgamado, alimentando um cadáver.
Quero parar o passado de existir, ele se envaidece
de me atar e logra que eu não passe a ser
mais do que eu mesmo,
infinitesimal agora,
vivendo a esmo,
(por hora.)

O futuro convertido em pré-memória,
O amor convertido em carga viral,
de muitos a mesma história,
de apenas um, algo real.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------

Poesia sempre me cerceia de alguma forma. Nada mais adequado, acho eu. Mas ainda assim tento evitar. Me traz muitas lembranças e não é do que eu preciso, lembranças.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Medo

É além de mim precisar em você fisicamente o que me revolve, em algum ponto da mente, estalos sincrônicos, todo o meu corpo parado, viajando por tubos de sensações confortáveis onde tudo é construído a partir do princípio que dará certo. Mas recentemente as ilhas de flutuação sensível, muito além da massa humana cega, embora junto a ela, têm se feito mais e mais concretas, interligando-se em sequência lógica, toda a vegetação respirando em direção a um príncípio comum macrocósmico. Por debaixo das minhas unhas escorre uma vontade quase que inviolável, tão cristalina por sua pureza, constituinte básico de sua estruturação química.

Em toda uma posição imóvel, como numa fotografia, eu consigo agarrar o sentimento que se materializa, uma intuição, ele é o acúmulo de toda a minha história de desejos, toda ela materializada. Construído está o meu desejo eólico feito de ossos que se articulam sob músculos e banhos de canais incontáveis, massa gordurosa e recoberta de pele tão estética; ali está, com a respiração e vontades humanas. Os lábios, assim, movendo-se milimetricamente no ritmo de uma melodia evocadora de emoções sublimes. Cada tonalidade que se alimenta da luz presente revela matizes jamais alcançados de uma profusão multicolorida, envolta por uma fina conexão vital com o tato. Mas minhas mãos, ao aproximarem-se, retesam-se na mesma velocidade... Eu ainda estou como desde o início dos tempos, parado abaixo do sol, olhando para o calor por entre folhas de natureza virgem, clamando sem linguagem por algo que me explique o porquê de eu estar sentindo essa fome nunca saciada, essa fome que repudia alimentos e todos os insetos que me atravessam, eles são a natureza em sua forma mais bestial e completa.

O clímax da canção! A nota mais alta, a mais difícil, a que mais consegue percorrer o caminho entre sua origem imaterial e o príncipio de uma lágrima. Eu avisto um brilho de relance, mesmo que não tenha brilhado. E duvido. Mas não se nega um olho, não se nega o que o físico constata e afastando-me eu me torno cada vez mais conhecedor de mim mesmo, ciente de todas as minhas múltiplicidades e inconstâncias. Eu, quando da mão da Terra, em seus confins fervescentes, irrompi, tal verme arrebenta constituintes humanos, na superfície, alérgico aos raios solares, cerrei minha mão na terra fofa, amassando pequenas folhas de outono espalhadas aos milhares pelo mato verdejante e parcamente iluminado, coberto pela copa das densas árvores ao redor. O cheiro de limpidez abriu meus pulmões e pude distinguir muito vagamente que se tratava de um caminho, um lago, cachoeira discreta, e a vida pulsava naquele ambiente brilhante e multicolorido. Todas as minhas necessidades eram as necessidades ao redor, o saber era íntimo e incontestável, uma espiral de sentimentos afagava todo o meu corpo, acolhendo-me entre a normalidade de ser algo incompleto e sem culpa alguma, completamente limpo de todos os meus pensamentos, eu caminhei por anos sem me cansar.

Ao fundo, em meio ao que vi de mais belamente erguido, a casa que estivera lá há milênios, com a porta aberta e tudo em seu lugar. Como se houvesse passado apenas uma hora, tudo reconhecível e a saudade havia sido como contar cada gota de todos os oceanos. Descendo as escadas, uma palavra soa realmente como ela se configura, nada havia de preocupação e nem desconfiança, tudo estava em seu lugar, mesmo que não houvesse um lugar. Eu nunca saberia se esse seria o destino final, mas uma plenitude, ou a inauguração de uma sensação nos eleva e tudo se acalma. Havia não-sido inúmeras vezes, mas eu conservava em algum canto uma certa inocência pueril de que há o certo. E não importava mais acreditar, pois tudo acabava da mesma forma e a sensação era sempre a mesma e encarada diversas vezes como a última vez, como a melhora por vir. De minha boca, infinitas contradições assolam apenas meus ouvidos e meu corpo caminha contorcido a mando de minha auto-defesa para longe demais do que me maltrataria com delicadeza. Além de todo o mal que eu sempre causei a mim, parece que nunca se desiste de provocar o pior sem piedade. De mãos alheias de si, o nevoeiro de todo um teatro que se passa na minha mente, o sentido intrincado em sua própria linha do tempo, eu me afogo em conclusões que irrevogavelmente me afastam de tudo, mas desta vez eu não tenho tanta certeza ainda. De qualquer forma, algo foi estranhamente composto e a raiva se ergue dentro de mim como pretexto para eu ser forte uma vez. Tudo posto, por que, então, se é, foi anteriormente minimamente sugerido? Eu estou confuso dentro de mim ao ponto de fazer o que sempre faço. E acho a solução a cada vez que viro uma rua, a solução está espalhada, mas jamais a alcancei! Onde era para eu estar agora e onde estou?

Fisicamente começo a existir e a dor é excruciante. Tudo o que me destaca dessa vil massa ambulante pode estar prestes a apoderar-se de mim com intensa simplicidade. Meu distanciamento aprisiona faltas em nome de uma estagnação contemplativa e reflexiva. Mil metros acima do que se julga satisfatório, a observação causa repulsa e ao mesmo tempo medo. Medo de um dia ser irreconhecível. Tudo graças a não poder contar, não poder crer. Uma infinidade de obstáculos de ar pesado.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lacuna

Tenho sentido a falta do ar, meus pulmões buscam mais de mim para assegurarem-se vivos. Pelo minuto no qual estive ausente, por esquecer a parte que me cabe no todo cósmico, tenho pagado por dias esse deslize frente aos degraus cada vez mais íngremes. A vontade de reescalar não levaria à salvação, como parece, como é tão impregnado em mim esse sentimento de correr pelo que já me é familiar. Um braço estendido, timidamente, oferecendo que tudo seja o que deveria obviamente ser. E o nada no que tudo se tornou? E as crenças que se desfazem por completo? E meus sentimentos tão verdadeiros, tudo tão sincero! Por que sempre tudo parte de mim? Eu não consigo sentir nada além de amor, um amor profundo e enraizado fluindo de cada hemácia, seu rastro derramado nas paredes dos vasos, vazando pelos órgãos, bombeado por todo o organismo, pulsante, integrando moléculas de DNA, como se não houvesse sido programado. Esse ataque independe de comandos cerebrais, está intrincado ao próprio funcionamento místico dessa máquina orgânica, um corpo a flor da pele, trabalhando para sustentar-se, ainda que espetado em vários sentidos por espinhos microscópicos. A cada movimento, o músculo retraído comprime em suas fibras essas esferas afiadas, promovendo múltiplos cortes, a sensação pungente e desconhecida, cada movimento é interpretado como um passo à concepção idealizada da plena felicidade. É auto-defesa.

Tão próximo estava de ser o que finalmente... E tudo se encaixava, obrigatoriamente deveria dar um passo em falso e não saber mais como caminhar. Como se vivesse em pleno espaço, cercado por constelações e milhões de orbes espaciais, corpos celestes e seres que nunca souberam o que seria uma raça humana. Nesse vazio recheado de possibilidades, na ausência de gravidade, somos livres para flutuarmos como pensamentos. Somos pensamentos, meros instantes energéticos libertos de concepções e contexto, libertos de olhares e sílabas, os gestos, não impedidos, são os mais sinceros e falam todas as línguas. E se todas as estrelas forem, na verdade, algo diferente de estrelas? E se, fora daqui, tudo for diferente do que é aqui? Caso estivéssemos inconscientes seria tudo diferente? Num sonho, num delírio, num êxtase, num coma, nos primeiros instantes antes da morte... qual seria? As mãos se unem finalmente nesse espaço-tempo imutável, que rebaixa tudo com sua magnânima infinidade e enterra em buracos negros toda uma tradição de opiniões e comportamentos. Só nós importamos e o que flui é mágico, o que estava sempre por aqui é o normal e o normal é extraordinário. Eu sempre busquei mais de mim para ser mais para todos, quando ninguém nunca quis mais, ninguém nunca soube a diferença.

Do centro da Terra emanam todos os impulsos cataclismáticos, anunciando, a cada rachadura vagarosa da crosta, a necessidade de emanciparmos nossos sentimentos a outro nível de desprendimento. Antes concentrados em nos desfazermos, amarrando os fios de nossos impulsos cuidadosamente para que não doesse tanto, agora forço-me a consumir meu tempo buscando cada nó para que ele seja desfeito. Olhares de reprovação ainda não se conscientizaram sobre a urgência do planeta em modificar-se, em limpar-se de todo o supérfluo. Sinto no interior de meus ossos o regozijo por estar caminhando sobre essas folhas secas feitas de pele humana já envelhecida e quebradiça. Meus passos as pulverizam em direção a uma nova existência, onde a não gravidade é aqui, onde toda a comunhão de corpos é possível sem que esteja distante. O amontoar de corpos sadios, em transe fascinante por outro corpo vazio, uma união universal indistinta de todos os seres que se se cortaram, arrancando seu sangue e filtrando todo um corpo, bebendo em homenagem a uma renovação hiperbólica. Preciso de tudo além, uma reestruturação excelsa, o amor ocupando cada átomo que me estrutura, que me traduz em matéria, cada átomo repleto das ínfimas partículas plasmáticas constituintes do sentimento. Meu corpo exige mais de mim, mais comunhão, mais vida, mais do ar que respiro.

A boca é por onde entrevejo tudo o que posso conhecer de mais profundo sobre um corpo em seu sentido mais primitivo. Por entre os dentes e sobre a língua estão os primordiais elementos, os dados mais humanos, toda a voracidade dos ancestrais transmutados em apenas um corpo novo. A dor que sinto é ausência pura, o nada se fazendo sentir. O buraco negro da existência, um nada que a tudo consome e tudo engloba. Por vezes não me lembro mais o que era de início e no que me tornei, tantas foram as transformações. Eu só queria muito pouca coisa, na verdade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ao Final de uma Etapa

Andava com a cabeça no mesmo lugar, por ruas a fio, mecanicamente, trocando palavras consigo para evitar o tédio da distância percorrida múltiplas vezes. Apesar da invigilância aparente, notava cada rosto que atravessasse seu caminho, reparando o canto do olho de cada pessoa, a fonte de todos os seus sentimentos, a fonte da realidade. Movia-se em uma velocidade normal, o fim do dia não reservava nenhuma surpresa. Era dormir e acordar para recomeçar nessa escada horizontal e enrolada no próprio eixo derrubado. A caminhada, a caminhada pela mesma distância percorrida múltiplas vezes. Seu canto do olho mostrava o que era real em si? Mas ninguém reparava.

A observação não era, porém, gratuita. Buscava algo em alguém que não existia. Nenhuma das duas coisas existiam. Apenas a ausência. Quando acordara na pele, não soubera o que fazer dessas sensações que se assoberbavam continuamente e sem explicação. Não teve escolha, a não ser rogar a um Deus que se prontificasse a responder seus anseios mais íntimos, posto que nenhum ser humano o seria capaz. Mas nunca soube entender a resposta, supondo que ela havia sido enviada.

Mas ao se afogar no primeiro pingo d'água, sentiu todo o seu corpo transportar-se para absorver aquela gota e mais cada uma que se aproximava, devagar, depois rápido. As moléculas vindas do céu se misturando com as suas eram como um sopro de vida da ponta da língua de Deus para todo um humano que não tinha mais a certeza de haver sido realmente um dia diferente de um bando de órgãos involuntários. Elevando o rosto, a pouca luz ainda ferindo os olhos acostumados a dormir, recebe, pela boca, limpando tudo por dentro, a água da chuva, impensada, apenas dos recônditos jamais alcançados por mãos humanas, uma floresta virgem.

Enquanto caminha em suspensão, o amor que brota da ponta dos dedos evola-se para fazer do mundo um lugar um pouco melhor e derrete qualquer palavra viscosa que, naquele momento poderia ser cogitada. Apesar de palavras imundas, as ações cristalinas e sinceras somam-se por cima delas e as inutilizam. Prefiro palavras hediondas a ações dissimuladas. O amor invisível é o mais precioso e quente. Ele queima todo um coração que absorve essa água, pulsando a essência da vida por artérias cansadas de serem subestimadas. O calor que invade todo o corpo, desesperado por transferir esse calor, ansioso por achar o recipiente de si. Um corpo que caminha sobre si dia após dia, vencendo-se e chorando por razões múltiplas, sempre achando algo que o faça mais necessitado desse calor que é inexistente por si só.

O desejo de união pulsa, resguardado no fundo de mitocôndrias, um elo partido, dos quais fragmentos se espalham por cada organela, buscando uma a outra, introjeta no inconsciente do corpo a falta inexplicável que suga o ar dos alvéolos. Células instintivas, incompletas desde a criação dos tempos, em seu DNA está espiralada a ausência que é a constituição do ser humano. Mas como se me fosse íntimo, percebo uma leve alteração química quando estou na presença do que, ainda que seja mera representação, remeta-me a completude. O esforço por livrar-me da impressão equipara-se a exigir que o fígado abandone sua função exócrina, em meu corpo firmo tudo o que me suspende quando não suporto mais viver entre meus iguais.

Mas, com a mão fechada, guardando riscos de água, chega ao final da caminhada não antes de atravessar a rua. Um pequeno olhar de precaução para ver, em sua direção, o ônibus que ignorava qualquer exceção. Em sua frente, contrastando com a escuridão do final do dia, muito claramente, sua frente assemelhava-se ao que fosse uma passagem para onde a compreensão é absoluta. Irresistíveis milhões de impulsos são gerados em milésimos de segundo quase que automaticamente movendo o corpo em direção a essa galeria de auto-satisfação. O cansaço se apoderando das pernas rapidamente, turvando os sentidos mais externos, uma euforia quimicamente arquitetada para isolar-se de qualquer medo consciente e planejamento quanto ao futuro. Apenas se busca sanar a dor mais pungente, mais verdadeiramente enraizada.

Contudo, o portal já havia passado e se fechado. Era seguro completar a caminhada como em qualquer dia. E, antes que pudesse concluir seus pensamentos, encontrou.