terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Reconstrução\ Sobre o Momento

Cada parte que é recortada cai, apodrecida, um pouco coberta de pele descamada. Por baixo, fios ainda ligam o tecido ensanguentado à nova pele, uma pele transparente, ainda nua. Ela se expõe aos poucos, se arrepia ao tocar o ar, se sente indigna de ser iluminada por qualquer luz, não sabe o que fazer ante qualquer olhar. Essa pele, uma pele que nunca ouviu sons com sinceridade, pela primeira vez assim, viva, carrega uma fagulha de vontade. Ela se alastra, seu desejo faz dela como um abraço há muito tempo reprimido, ela se espalha ao redor de si própria e vira a peça central, se torna a protagonista, não mais é uma, ela é. E sendo, ela não sabe como agir, não sabe interpretar o frio, o calor, a dor, o toque de outra pele, não sabe como se deixar levar, não sabe. Se sente tão pequena agora em sua totalidade, se sente vazia, mesmo tendo alcançado a grandiosidade. Ela não sabe mais como se chamar.
Ainda assim, mesmo sem saber bem do que precisa, mesmo sem ter certeza sobre o que quer, não achando certo que queira o que acha dever querer, ela existe. Pode ser que isso baste, pode ser que essa seja a resposta que tanto procura. 

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Esse texto foi o que iniciou tudo, mas coloquei-o no facebook e resolvi passar para o blog, porque ele está sendo um diário de sentimentos mesmo. Esse texto é de 7 de setembro de 2011, vou usar a data para marcar alguma coisa que estou pensando agora, mas não tem forma definida ainda em palavras. 

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Talvez seja que durante um momento, só ele importe. E nada do que construiu os que estejam nele envolvidos valha de nada. Pode ser que o momento se baste, que seja seu próprio começo, meio e fim, como num conto. Prefiro achar que ele seja como uma crônica, mais próximo, mais verossímil. E não perceber que o momento se refaz eternamente, mas espaçado; sendo incompleto, mas amplo e infinito dentro de sua característica mais particular que é a de ser desejado, não preceber isso pode ser fatal. Não compreender que o momento necessita ser ausente a maior parte do tempo, que ele necessita deixar-nos inquietos e saudosos, que ele necessita que o busquemos, nos angustia. 
Que profundo egoísmo e imaturidade querer que o momento perca sua essência mágica, tornando-o ordinário, tangível a nosso bel-prazer. Aprender a lidar com o que ele realmente é, sim, é a verdadeira beleza. E apenas assim pode-se tê-lo autêntico.
Mas e a paz de espírito? Pode ser que ela esteja em saber viver no tempo corrido sem ansiedade, sem querer, sem esperar que a vida se desdobre a nossos caprichos. Sabendo que qualquer gerador de felicidade só pode ser momentâneo. Vivemos de ilha a ilha, ficando mais leves a medida que seguimos, ou deveríamos ficar... Mas, em vez de querer, apenas ficar. E essa luta para compreender, esse esforço para se superar e todo o suor que brota do embate contínuo, o desgaste de tudo pode ser inútil. Inútil no final das contas.


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Esse é do dia 19 de setembro. Acho que eu estava começando a traçar metas para mim, mas ainda meio confuso sobre o que fazer. Não estou muito esclarecido hoje em dia, mas precisava compreender o que eu achava de momento. Isso continua sendo um sofrimento para mim, isso de momento. Eu quero aprender o que eu disse que deve ser feito. Eu estou devendo a mim mesmo postagens sobre temas que tenho medo de escrever sobre. Um eu já comecei e estou postergando por puro receio. Mas será a próxima postagem, tem que ser.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um Momento

Não havia maneira de bipartir o que havia nascido unificado. Como se a esgueirar-se por corredores funestos de ácido esfumaçante, uma lâmina de vontade oposta, criada pelo desprendimento de energia vital em fazer adoecer alcançou o cérebro de neurônios finamente interligados em sinapses hiperbólicas. Deliciando-se em passear pelos sulcos que naturalmente impediam as células de se aglutinarem, já que a simbiose não é saudável, promover-se-ia uma ruptura, esfacelando traços de memória. O resquício do sentimento de identificação adormeceu no âmago invisível do inconsciente, onde jamais haveria de ser perturbado, ainda que por si próprio o quisesse. E assim percorreram milênios de olhares antagônicos, um frio entre os dedos das mãos, um constante recompor-se de uma lepra interior em meio a um dia normal... E eu ainda mantive-me no centro de mim, para observar a rotação das infinitas partículas que a minha volta dançavam, ao mover de cada músculo, eu sabia prever todos os passos que se seguiriam, eu sei olhar de dentro para fora de tudo e expelir desejos incontroláveis antes que possam ser dissimulados. Eu sou o avesso do fingimento, eu sou o estupro do ser humano por si próprio.

A pele chamuscada ainda sofre arranhões constantes, a unha finca no sob-a-pele rosado e o sangue discretamente, um sangue cristalino embalsamado de ilusões pueris, esvai-se, como que acompanhando a água salgada, muito semelhante em sua constituição cristalina, um abraçar-se irrevogável, com pedidos de desculpa entre os dentes, as veias na testa querendo explodir involuntariamente, acentuando seu desejo de não mais habitar essa rotina a qual já tem por dentro de seus canalículos mais com esmero fabricados. Eu tentei alcançar o mais íntimo possível, na ânsia de não mais precisar esfolar as pontas dos meus dedos em teclas de computador. A vida inteira que é mais eterna do que eu jamais pude entender parece ter acumulado em minhas costas todas as minhas intermináveis auto-percepções, mas não, não é bem disso que se trata.

Recuperando o fôlego, tentando manter-me além de mim um pouco, para olhar para o lado e não reconhecer o outro lado como uma parte impregnada de mim e minhas emoções e meus transtornos falsamente contornados, e abrir mão de tudo o que me embaça os olhos, acostumados a fecharem-se para um mundo de necessidades fisiológicas e barbáries desviadoras de atenção. Eu corto com uma serra meu braço direito, logo abaixo do ombro, por ter a certeza de poder recolocar em seu lugar um braço idêntico, que vou encontrar no segundo seguinte a dor de perder meu próprio, o que vem é como se fosse o meu próprio e sei que será feito o sacrifício da doação abnegada sem nenhum pesar. E viver com apenas um braço tem sido meu maior desafio até então e não sei mais caminhar, perdi o equilíbrio do corpo inteiro e não sei mais realizar as mais básicas atividades diárias. Olho-me no espelho e sinto um nojo e vergonha de meu auto-sacrifício ingênuo, aprendendo a viver por mim mesmo, dependendo da ajuda alheia, mas ainda assim rechaçando-a. Se eu fosse incapaz de me entregar, seria a solução?

Eu me julguei tão abstracionista, imaculado ao alto, isolado em minha torre ebúrnea, tão mistificado e pulverizado de alegorias que me dificultariam a compreensão, sendo a expressão mais pura e verdadeira do que sinto, a origem do sentimento, meu sangue primordial vazado por vontade própria, como se eu me cortasse de propósito para poder continuar vivendo. Mas ao redor de todo o vidro, das escamas multicoloridas, eu não consegui me mesclar com essa vida mundana e todas as minhas tentativas de ser ordinário me corromperam até a doença algum órgão vital. Após reestruturar-me, despejei o arrependimento de acreditar-me capaz de ser diferente de minha essência que pulsa em paredes suaves de um veludo vermelho-sangue, o aconchego quase como uma colcha de seda em uma cama com trezentas e vinte e cinco almofadas. A proteção a qual confino tudo o que sou realmente me identifica com o utópico do ser humano, o qual agarro com afinco de animal instintivo e não meço palavras, não meço ações, recaio em mágoa profunda e idealizo tudo diferente, como se fosse reconstruir um mundo inteiro apenas pela minha vontade e eu não tenho medo de acreditar que a perfeição (para mim) é real, a essência muda, mas nunca se transforma quando é boa, ela adormece, camufla-se, torna-se receosa e tímida, mas em terreno fértil ela volta a desabrochar. Era dessa água que eu falava uma vez, quando ofereci uma parte de mim lindamente composta e feita concreta. Era dessa água que bebi quando me foi ofertada abundantemente, ainda que involuntariamente, e eu consegui, pela primeira vez em tantos anos, lembrar exatamente como eu havia sido há muito tempo atrás, mas que me dá a impressão que amanhã ele vai recomeçar e nada disso que passou teve valor, era como um meio pingo d’água na eternidade.

Mas agora, ainda um pouco atordoado e acumulando mais pedras enquanto tento caminhar em linha reta, aos poucos estou deixando de me importar novamente. Todo o fracasso e humilhação chegaram a um estatuto que me arrancaram as forças para afugentá-los ou fingir que são fantasias. Eu não me importo. Eu sigo sem dar valor ao que sempre dei e olhando para o nada com a certeza do nada. Querer sempre foi minha fonte maior de frustração. Não quero mais. A qualquer vislumbre de vontade, arrancar do cerne da hipótese sua matriz fundamental e enxergar o real cada vez mais intensamente. Eu quero o real do que posso encostar. Estou exausto.

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Acho que não consegui passar o que queria tão a fundo como estou sentindo. Mas estou sem vontade também de tentar me espremer mais. Como se não houvesse pensado nisso o suficiente, quero tentar seguir. Eu amo este blog, estas paredes pretas e esses pingos brancos, como se fossem uma luz, como se eu fosse todo esse blog e meus textos fossem pequenos focos de luz que saem de mim, tentando me resgatar. Já que ninguém parece conseguir fazê-lo, nem eu mesmo. Só queria saber porque para todos é tão simples, estou desejando coisas horríveis neste momento, apesar de me considerar uma boa pessoa. Vou parar agora, não quero mais sentir isso.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Foi um aprisionamento de todos os desgastes erosivos simultaneamente. Um feito de sutilezas e resvalos nos pontos invisíveis mais sensíveis, obcecadamente perscrutando o vácuo, balbuciando palavras inteligíveis, a imersão na espiral do desequilíbrio.
E como a ignorar uma demarcação minuciosamente acertada, andei a esmo ignorando minhas vozes superiores julgadas erroneamente, mas sempre tão próximas a mim. Ao que indefinidamente rechaçadas, não se opuseram a enlaçar-me no tecido amarrado de todos os eventos planejados, contrariando a certeza visível e sentida como um corte bem rente ao pulso, um sopro de vida por dentro deste mesmo corte se espalha por todos os vasos sanguíneos, tornando coesos todos os caminhos que levam ao destino de suas criações, uma funcionalidade em perfeita harmonia. Do âmago dos cristais gelados magistralmente esculpidos que enrodilham cada fibra, minúsculas fontes de profusas sensações inibidoras, surgem lampejos de cores indefinidas que se amalgamam em material citoplasmático. A energia que se depsrende do foco de toda a paralisação por vezes a faz falhar, logo de todo o processo estará independente quando, ao entrar em contato com o sentimento em sua totalidade, até então desconhecido ou esquecido, absorver dele a essência, incoporando-o a si para reciclá-lo, dividindo-o com o meio-ambiente e pronto a fazê-lo parte constituinte de si em simbiose voluntária e consciente. A migração para o inconsciente a partir de um voluntário esforço físico-mental há anos ensaiado.
Consigo esticar meus braços de ponta a ponta  

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Escrevi isso, porque estava sentindo uma grande alegria. Eu pretendia continuar, mas os pequenos percalços foram me impedindo, coisas da vida pragmática. Mas foi o tempo que perdi mais precioso, porque agora não estou mais sentindo isso, eu voltei à estava zero. Não é novidade, está cada vez mais curto o período de intenso auto-martírio que sucede minhas grandes alegrias. Bem, eu uso o que sinto genuinamente como combustível. Já sei minhas duas próximas postagens sobre o que serão: a seguinte será sobre tudo o que aconteceu, minhas impressões e a posterior sobre algo que já queria ter escrito antes: uma projeção do fim de meu processo de auto-conhecimento. Ou, pelo menos, não o fim, mas o clímax satisfatório, o que finalmente me deixará pronto para a real próxima etapa.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Bipartido

Quando fui dormir, não foi porque necessitava, mas porque estava cansado um pouco além da conta de tudo ser um ciclo. E minha voz não era tão ouvida quanto falada, atendendo a requerimentos. Sentia em cada pedaço as humilhações desse tempo, os erros, as enganações. Toda uma imaginação gerada por dentro, mas ao estímulo externo, algo incrível. Eu nunca imaginei que esse processo fosse real. E um pouco cansado também de estar espremido tanto emocionalmente, mas agora também fisicamente. O esforço que demanda é infinito, mas me fiz inconstante ao ponto de me ferir no mesmo espinho diversas vezes. E a mesma pergunta. Toda essa situação me fazendo extrair o pior de mim mesmo e olhá-lo, quando o melhor se dissolve e mais abundante. Se assim é, por que permanecer incólume?

Eu morri naquela noite.

É que quando acordei e olhei-me no espelho, não me reconheci. Era idealizado, e a cada imagem que eu percebia em meu caminho, sabia todas as reentrâncias musculares que as compunha, eu era em meu cérebro cada rosto que aparecia. De repente, transformei-me em diferentes homens, as mais diversas mulheres, crianças inocentes, idosos em mínimo número. Eu era agora a verdadeira metamorfose ambulante e palpável. A felicidade nunca me pareceu tão possível. Corri sem medo pelas ruas, os braços abertos, tomando todos os raios solares de uma vez junto com a água da chuva, o vento gelado e a sensação de mormaço não me abafava mais. Aquele dia proliferou mais do que toda a minha existência.

Ao terminar o dia, nos finais de semana, nas férias eu não sabia mais quem era, tantas eram as experiências que conseguia criar. Percorri uma infinidade de corpos em tantas vivências. Eu soube o que eram todas as sensações físicas do universo. Sabia o que sentiam todas as multiplicidades, eu era um arquivo vivo de sentimentos e sensações. Eu estava quase completo. E nessas andanças, percebi como fazer para aumentar o tempo que me dedicaria a saciar meu novo hedonismo. Saí às ruas exercendo toda a beleza capaz de projetar e a mim vieram tão facilmente os produtos dessa vida pragmática, era tão simples como os efeitos mundanos eram equacionáveis e seus resultados previsíveis, calculáveis, sistemáticos.

Livre de mais essa tribulação, a necessidade material, eu passei a esbanjar o meu tempo entre saciar-me e conhecer o novo que, em breve, não mais seria novo. A incrível capacidade de adaptação do ser humano por vezes é traiçoeira, pois nos motiva sempre a uma insatisfação, mesmo quando não há mais atrás de que ir. Mas as possibilidades para mim eram agora infinitas e poucos anos não poderiam ter esgotado tudo o que eu tinha a vivenciar. Viciei até a última matéria orgânica de que sou composto em prazer e fiquei cego, atordoado pela espuma vigorosa.

Mas por ter me esquecido da dor, passei a ocupar, à noite, na margem da sombra alheia, formatos que sujeitassem o avesso de meu idealizado patamar e forcei-me a ser por um momento esses formatos, não apenas igualando-os ao que havia feito durante esse tempo de milagres. E a cada palavra, a cada olhar, eu aguçava minha mente para entender algo que eu mesmo fizera e havia obliterado, como se tivesse tal direito. Era como se meus braços e pernas não mais existissem e eu me movesse graças a aparatos tecnológicos que implantei nas cavidades sangrentas. Eu não existia mais sem eles, não podia desvencilhar-me da vida da qual era parte simbiótica.

Mas, depois de alguns dias, eu não sabia mais o que fazer com o prazer, ele não mais me instigava. Eu fui até o espelho e o que vi foi inexplicável. As memórias abafadas de minha morte me diziam agora claramente, como a imagem bela no espelho do que eu era na noite em que fechei os olhos para sempre. Naquela noite, sonhei com a imagem do homem que acordei sendo. Mas e antes? Eu não conseguia compor os traços até quando os vi no espelho. Eu quis ser aquilo e não conseguia formá-lo. Eu não tinha o direito de ser eu mesmo novamente.

O que fazer quando já se tem do tudo e do nada? Foi quando não deixei meu quarto luxuoso por uma dia inteiro. Procurei por fotografias minhas, mas tudo relacionado a mim enquanto vivia no singular havia desaparecido, perdera-se no tempo em que me mantive suspenso. Procurei pela internet, a todo o momento alguém queria parecer se importar com a minha repentina ausência, mas ignorei a tudo, eu apenas fixei meu pensamento em uma época longínqua quando nenhuma daquelas pessoas eram reais.

Por senhas e páginas antigas, pessoas e eventos submersos, ao final do meu suspiro, deparei-me com uma imagem que me deu um sono profundo. Minhas emoções atingiram um nível que eu até então desconhecia e perceber-me ausente de alguma sensação condensou minha ainda incompletude. Eu traí a mim mesmo na suposição de estar acima do universo. Cambaleei até a cama e adormeci.

Sempre ao espelho, como se quisesse me certificar do que eu era. Eu sabia que havia recobrado o eu primogênito. Havia uma certa opinião de mim mesmo neste momento tão mais distanciada. Corri à rua, estava um dia fortíssimo, sentei-me perto da praia e observei por um dia inteiro esse mar maravilhoso, as pessoas passando a minha volta, vivendo alheias a seus próprios conflitos em nome de serem felizes. Em uma abnegação de si tão sublime e eu me lembrei que da forma como estou nunca fora capaz de realizar tal feito extraordinário e tão reles para qualquer ser humano.

Ao passo que a noite se chegava, consegui encontrar-me, não sei se no mesmo dia, com alguma boca, mas desta vez uma pessoa inteira. E o sentimento conjunto, passando pela ponta dos dedos, envolvendo cada movimento não-planejado, afogando todos os sons a volta, em um contínuo de palavras há sempre entaladas. Como em uma explosão nuclear, sem nenhuma esperança e premeditação, o tempo em espirais intensas, naqueles segundos, tudo congelado. A não-necessidade de qualquer pensamento, um alívio de poucos instantes, como a formulção da primeira molécula de uma gota d’água que em breve cairá em um rio que desaguará em um oceano. Ao conseguir tornar físico anos de imersão abstrata, meu corpo finalmente conseguiu o descanço que tanto almejava e julgava haver conseguido.

Não se sabe ter terminado algo até que se tenha de fato. E como saber se desta vez foi, de fato, concluído? Eu adormeci novamente. Eu não estava sozinho, como achei que estaria ao final desta história.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

- Sim, está tudo bem.
- Tenho observado algumas mudanças, realmente.
- Eu não consigo mais ficar parado. Algo se move dentro de mim e me puxa. Eu contenho um pouco, mas parece que tem uma parte de vontade própria.
- A vontade é apenas sua.
- Eu vivo em comunhão com meu corpo agora totalmente.
- O corpo não é nada. Um invólucro pesado e falho, me enoja.
- Não! Ele é substância de vida feita real, são as emoções palpáveis! O corpo é vontade visível, são pensamentos materializados, a beleza da vida ambulante, a prova da divindade consciente!
- O consciente é a mente. O corpo sem fluido plasmático o que é? Volta aos vermes mais imperfeitos ainda.
- Ele é o fluido tangível. Eu não consigo mais viver ignorando a mágica detrás de tudo isso.
- Mas acho que para você é um avanço. Você sempre viveu com opiniões muito próximas às minhas.
- Estou aprendendo a enxergar tudo. Ainda não me inaugurei.
- Outro corpo não teria feito você chegar até aqui dessa forma. Acho que foi feito o melhor para você.
- Sim. Eu precisava disso. Sei a razão de ter pedido que fosse assim. Entendo mais, mas ainda tenho muitas perguntas.
- Eu não tenho as respostas.
- Mas sabe minhas dúvidas.
- Sei.
- Como posso seguir ainda com as pedras prendendo a minha atenção?
- Se fosse para descobrirmos todas as respostas de uma vez não estaríamos nem aqui vivendo, nem tendo esta conversa, nem nada.
- Entendo. Sinto como se meus pés se movessem lentamente na direção certa, mas cada passo ainda muito vagaroso. Eu tenho conseguido, porém, me aceitar bem-sucedido.
- De fato. Um dia direi tudo o que sinto.
- Você sente...
- Sinto uma infinidade, a pureza dos sentimentos não pertence ao corpo, a essência, o princípio do sentir é extra-corpóreo. Sem isso, você se alagaria em percepções, o real você entraria em êxtase beatífico.
- O êxtase é sempre algo tão momentâneo...
- O do corpo sim.
- Mas tenho algum medo ainda. Posso revirar-me no nada ainda por centênios de minha vida. Sinto como se estivesse placidamente estóico, alheio a contagem dos segundos. E mantê-los é todo o alvo de minhas divagações.
- Todo o tempo interior é precioso. No final, apenas se tem a si mesmo.
- E todo o universo?
- Sai de dentro do meio de nossa cabeça.
- Estou começando a perceber o que me cerca. A força magnética que me mantém. Fico atento a cada rasgar do ar próximo a mim. Temo causar estranhamentos, mas minha intenção é apenas ser mais completo, é trazer para perto de mim sem palavras.
- Um primeiro passo. Mas o concreto é onde está agora.
- Sim. Me perco dessa noção com frequência.
- As obviedades das quais surgem seus questionamentos não são lugar-comum. Quando for só mais um não mais estará em corpo que agora você se apresenta.
- Perderei a consciência?
- Quando ela já estiver entranhada sim. Pode ser que não seja mais necessária em forma tão aguda, tão perfurante.
- E do que me freia tudo isso?
- De erros.
- Não é disso que vem os acertos?
- Para que errar onde sabe-se que é errado? Não há mérito.
- Eu me sinto algo a parte.
- Você é.
- E a compensação deveria ser sublime.
- Ninguém está aqui para ser recompensado com frivolidades. O cerne do sentimento não vem da busca, ele apenas vem. Você pode buscar, mas encontrará o que já sabe.
- Sinto que é importante para mim.
- Que seja.
- Estou um pouco cansado. A percepção profunda de mim e de todo o significado das escolhas e atitudes cavaram fundo um poço dentro de onde eu nem sabia que existia. Como se toda uma biografia houvesse sido rasgada e entalada na minha garganta.
- E como se sente?
- Diferente.
- Um dia, você já foi assim.
- Eu sei. Voltei então?
- Mas não de uma maneira negativa. Nunca se volta igual idêntico. Volta-se melhorado.
- Voltar mas não completamente. Tudo o que falo remete ao passado, pois é meu constituinte inseparável, eu sei, mas sinto ter deixado uma brecha para futuro desta vez, onde eu não via muita razão de ser. Quando salto de mim, tudo parece muito pequeno, todos ínfimos joguetes, peças de um nada. Receio é ter me modificado ao ponto de não mais aceitar nenhum supérfluo, e nem mesmo o essencial por não saber muito o objetivo real disso tudo. Pode ser que não seja necessário, mas, no entanto, anseio.
- É o mais necessário. É a Lei Maior.
- Pode ser que eu não a saiba.
- Sempre soube. Excelso mestre na arte. E seria impossível que este potencial permanecesse transparente. Há lógicas impossíveis, num mar de erros, é só analisar, tão claro é para mim. Para você não?
- Não.
- Por quê?
- As inverdades tornaram-se verdadeiras por repetição. Apesar de eu saber serem falsas.
- O problema é apenas você. Mas nem sempre foi.
- Aceito isso.
- Não delegar a outrem o que deve aprender primeiro a fazer por si.
- E é tão mais fácil fazer por si.
- É. Mas apesar de não mais concordarmos tanto quanto antes, agora minha satisfação é maior.
- Devia?
- Não sei. Mas nem tudo se explica. Já tenho eu que penso como eu penso.
- Essa conversa poderia continuar para sempre.
- E não começou no infinito passado?
- Desde que eu me lembro.
- E por que precisa acabar agora?
- Em algum momento eu absorvi mais do que conseguia aguentar...
- Nada errado com isso. Tudo quer dizer algo sobre nós. E isso diz algo(s) sobre você.
- Você sabe o que me motivou a transcrever esta parte?
- Sei. Mas nem se falou disso... Ao menos não exatamente. Achei que você fosse me perguntar o que eu achava.
- Não, eu já entendi no decorrer. Foi uma ideia tola. Não poderia ser de outro modo.
- Não desta vez.
- Nos primórdios dos tempos, tudo já havia sido previsto?
- Não! Que ideia incoerente...
- Isso me dá certo alívio. Mas, e sobre as vontades que são irreparáveis? de onde elas brotaram como pensamento embrionário? Quais eram as condições que levaram ao lume dessa ideia?

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ao meu ano velho

Na verdade, não se fechou um ano, fechou-se um ciclo. E ao mesmo passo que a verdade é magnífica, é também um fardo de grande responsabilidade. O progresso agora é obrigatório, pois corpo e alma em comunhão não mais aceitam a estagnação tão característica de horas em reflexão. Ao passo que se arranca um pedaço da própria pele, há que se perder alguns minutos lambendo o próprio ferimento a fim de sarar-se, cuidar-se, ouvir-se, libertar-se.

Permitir de uma vez por todas que as inquietudes sejam bem-vindas e que a liberdade oriente a cura dos medos mais profundos, arraigados em práticas comuns do cotidiano, no receio de fazer a vida melhor. Pode assustar um pouco, de repente saltar e não saber onde vai cair, nem como, quem irá encontrar e como falarão. Assim, se o medo que é instinto primário não fosse o que é, estaria eu morto por agora e não haveria ninguém no planeta. Isso porque não tiro o crédito de coisa alguma. Porém, ele não deve suplantar-nos. E Nessa caminhada, em algum momento, brumas conjuradas de um azul espesso e quase negro turvaram obviedades e linhas de raciocínio lógico, naturalmente tão elementares.

Um passo em falso guiado por uma bagagem invisível e o instinto perseverou no cancelamento de tudo o que eu sei existir de real dentro e fora de mim. Os espinhos, provocadores de sensações tão afiadas, agora não passam de um incômodo supérfluo, brilhantemente contornável. O esforço que me guiava, agora soa como prática indispensável feita pela manhã, uma manhã de trabalho. E o alívio de estar vivo, como se memórias fossem feitas de anos longamente derrubados, é o que salta em mim agora mesmo.

Mas palavras apenas são como água. E concretamente tenho conseguido erguer uma muralha, ainda muro, de momentos que me corroboram. Não que eu precise de provas, mas alguns aspectos carecem de veracidade material, exigem que o toque se faça. Todo o meu existir se baseia, porém, e não paradoxalmente  dentro de um escopo milimetricamente designado por mim mesmo. É necessária a construção de barreiras. Sim. Barreiras que sirvam de construtores de personalidade e não de impedimento. De alguma forma eu sempre soube disso, de alguma forma eu não errei quanto a isso, apesar de crer-me errado durante muito tempo. Eu me construí eximiamente e tal labor foi minha obra-prima, justamente a razão de minha queda e crises existenciais. Não mais. Dentro da eternidade, um segundo de dúvida, mas saber-se mais hoje do que ontem não tem preço.

E com o sopro de vida renovado, os objetivos podem ter mudado, ou continuam como de um longo tempo atrás. Isso não tem nome, ainda não foi inventado, talvez ninguém conheça. Eu olho a minha volta e não consigo perceber um lampejo de vontade, mas aos poucos, nas reentrâncias, percebo desejos bem contidos e temerosos, bem infantis ainda e cambaleantes de transformação, de insatisfação. E essa é a jóia mais preciosa dos universos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

No Enquanto

Pela madrugada, farpas invisíveis.
Por mais que eu me rebata, é constante
a paraplegia de limitações intangíveis,
por todos os meus músculos, e além, tornando-se contagiante.

Ninguém ousaria falar frente a minha dor,
Pois que ao senti-la, em tormento, a língua se desfaz,
o grito não tem por onde evaporar e o torpor
dessa sensação excruciante esmaga, uma origem mística,
de há milênios condensados em anos atrás,
vaga, inóspita, fagulhas embebidas em veneno de uma ironia artística.

Embalde compus, de poéticas fibras, uma vítrea redoma
e canonizei uma imagem de mim mesmo em chuvas de pétalas,
admirando-me a pureza, de tão alto, de sublimes qualidades uma soma.
Inabalável estrutura e complexos compostos cerebrais, formando
tão inigualável obra-prima de altivez e hombridade excelsas,
cego por seus auto-clamores, ao toque de si próprio, tombando.
Eu me vi em pedaços, obrigado a curvar-me para reconstruir-me.
A humilhação de não ser inteiro, os sentimentos escorrendo em terra firme.

Eu corto em um braço e arregaço a pele com os dedos,
quanto maior a ferida, mais ela é o eu mais sincero,
mais ela diz de mim, mais ela afaga meus medos,
que adormecem, então, um adormecer singelo.

Tudo um ar tão presente, embora o mesmo espectro
de um passado enterrado, o cheiro do cadáver entorpece,
como se diariamente vivesse em retrospecto,
dia após dia se torna um passado, amalgamado, alimentando um cadáver.
Quero parar o passado de existir, ele se envaidece
de me atar e logra que eu não passe a ser
mais do que eu mesmo,
infinitesimal agora,
vivendo a esmo,
(por hora.)

O futuro convertido em pré-memória,
O amor convertido em carga viral,
de muitos a mesma história,
de apenas um, algo real.

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Poesia sempre me cerceia de alguma forma. Nada mais adequado, acho eu. Mas ainda assim tento evitar. Me traz muitas lembranças e não é do que eu preciso, lembranças.