domingo, 10 de março de 2013

Perdurando

Havia encontrado um súbito suspiro escapando por dentre seus lábios rotineiramente tão relaxados. E ao balançar seus braços, notava como era belo que pudesse cortar o ar e sentir o peso de seu corpo existindo tranquilamente. A certeza de que sempre estivera certo sobre si mesmo finalmente chegara, ante os recentes acontecimentos, sentia que tudo havia sido necessário. Tudo o que fizera e o que não fizera. Era, então, isso,  o estar em paz consigo mesmo? Ele não conseguia agir através de fingimentos, como simulando algo que não sentisse e, fazendo disso um hábito, pudesse acostumar-se a sentir-se daquela forma. Era guiado pela vontade. E estava à vontade sendo ele mesmo apenas. Aquela busca incessante por completar-se havia vindo corroborar-lhe a incompletude, a qual inexiste. Se há algo que juntar com o que se tem, é algo que estava dentro de dele e ele não havia descoberto. Mas não vazava simplesmente, estava intacto em um ponto aonde apenas se chega através das experiências. Por isso, nada do que se faz é perda de tempo. Até o que não ocorre é perda de tempo.

Deu a mão para sua outra mão e adormeceu em paz desta vez, confiante que o amor que brotara era real e crescia largamente dentro dele, um amor que se estendia aos outros, porque partia dele e não porque nascia nos outros e, assim, era transportado a ele. E, ainda que esse amor não lhe fosse outorgado, não importava. Ele criava cada fagulha de amor independente de qualquer circunstância e isso era dar-se paz. Em vez da ânsia que se apoderava dele toda a vez que se via sem ter sobre quem depositar esse sentimento, agora ele se via como receptáculo e deixava o caminho livre para que pudessem andar, flutuando, levemente entorpecidos, aqueles que quisessem dividir alguns momentos em sua companhia, uma vez que a ele também fosse benéfico. Acontece que era mister que fizesse parte deste processo o enxergar-se. Não se trata de orgulho, como antes pensara. Não se trata de empáfia, trata-se de amar-se, o que descobriu ser primordial.

Resultante do afirma-se como ser humano estava o abraçar mais do que fortemente quem outrora pensara ignorar por não ter a coragem de sentir o amor transbordar. As lágrimas legítimas que escorrem de um coração pleno de saudade são mais dignas do que as que escorrem do vazio tão arduamente construído por detrás de sorrisos calculados e palavras medidas. E palavras de carinho não deviam ser poupadas e toda a demonstração de amor deveria ser cultivada e toda a paixão deveria ser concretizada para que se viva tendo aprendido a ser feito de sentimento. E é lícito repudiar o que desanda ao que se definiu como prioritário. E ele havia definido. Sabia que o prioritário era que distribuísse essa placidez recém-fundada, por seus olhos, ainda que carregados de tristeza, mas deixava a mágoa ser enxugada por cada fragmento de pensamento feliz, cada projeção de uma cena em que estivesse junto com quem ama. Sendo feliz. Não é pecado ser feliz, ainda que seja apenas uma intenção. Naquele universo, o da vontade, ela é autêntica.

Ele queria saber mais de seu amor. Ele queria abraçar, beijar o dia inteiro, dormir junto, sair para um programa tão banal e íntimo, chorar quando se afastassem, dar um presente em uma data na qual se dá presentes, receber uma mensagem de fazer chorar pela simplicidade, dizer que ama...


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Juntando os Rascunhos em Ordem Cronológica

Houvesse, porventura, real orgulho, do qual envergonho-me de ostentar a mim mesmo e frente a quem diz amar-me, haveria eu de conjugar ações com sentimentos sem ao menos hesitar, tal qual orientado pelo instinto? Que instinto é esse que se desenrola, de dentro para fora, originário de configuração celular ainda não mapeada? Espraiando-se por um corpo sujeito às naturais agruras, a febre, alinhando-se ao torpor decorrente da prolongada falta de apetite desnorteiam mental e fisicamente a capacidade de raciocinar sobre o tempo que se alarga e se confunde em relação à realidade de sua duração e peso sobre as costas desse corpo.
Enquanto esse impalpável recanto, de uma placidez absoluta, reconfortado por decoração vítrea e pulsante de vida, sereno em seus sons melodiosos que refrescam a pele apenas ao reverberarem pelo ambiente de um frio ameno... Enquanto esse recanto reforça o teor de vida que borbulha atrás da placidez do meu rosto, deixa-me faltante, em vãos ao longo de minha coluna vertebral sobre a qual recosto e sinto, a cada passo, essa dor vazia. Como pode algo não-concreto se fazer presente, mais presente que a existência em si? Fortalecer-me contra mim mesmo, para que eu não afunde minha felicidade tão duramente conquistada e ainda embrionária... Mas tão quente...
 Eu tenho certo medo, medo do que eu estou sentindo, medo de ser a hora, medo de ser verdade, medo de, na realidade, não ser real o que se aproxima tanto da verdade.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Avançando pelos limites intransponíveis, uma rede de sentidos é costurada de microscópicos momentos afixados no plasma sem cor do universo. No hercúleo esforço por alterar o parâmetro pelo qual seguem os pilares que sustentam minha consciência, guiam meus sentimentos, orientam meus movimentos, impulsionam minha catarse; destaquei apenas um componente do mural de amplas possíveis sensações e, engolindo sua essência, pus-me a perambular por qualquer caminho que se abria. Em mãos, uma reorganização pessoal, uma meta que me transcende.

Ao raciocinar sobre o feito, eis que se desenhava com a mesma sinuosidade a qual outrora me fora tão familiar e eu reconhecia uma vida inteira exemplificada em apenas horas. Ao passo que se levava o dia, ficou claro que uma nova ordem apenas era uma reconstrução de um íntimo sentimento jamais destroçado e impossível de ser pulverizado. Era isso o que me sustentara e sustenta, como se cada átomo que me compõe pulsasse de paixão por vida, pela intimidade pura, inquestionável, inquebrantável, inviolável, incólume, infinita.

A magnitude com a qual me dedico ao que me ordenam os sentimentos fragiliza ao extremo e suplanta, muitas vezes, meu bem-estar. Ainda não consigo enxergar tal característica como a ser superada, sinto meu corpo vivo pela irrigação sanguínea movida pelo sentir. Desde esferas longínquas, moldadas por mãos imateriais, o fluxo da eternidade ansiava por este momento no qual um turbilhão de reciprocidade daria vazão à construção

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fincando as palmas das mãos na coluna de gelo maciço, atravessando-a como espuma frígida. Nenhum toque humano que não o das mãos desenhadas no vazio sombrio de onde este gelo, cristal a cristal foi depositado pelas frustrações e espasmos duvidosos dos seres mais próximos do Criador, poderia produzir o calor para derretê-lo. A água que brota das frestas antárticas, em suas moléculas microscópicas carregam, banhando-me as mãos, toda uma era que acumulou-se em pedaços gélidos. Desfazendo-se entre meus dedos, a fortaleza que ergui para de onde não mais saber escapar, em labirínticos corredores, a espreitar um alívio para o tormento que eu mesmo havia planejado, como justificativa para todos os meus atos de salvação, a julgar-me mártir salvador, erguendo as cruzes de meus amores.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Nossas mãos encostadas, sem que qualquer movimento quebre a harmonia de uma proximidade fria, ainda tímida. Eu sei tudo o que se passa por entre o que nos impede de contato, mas tanto quanto suas feridas estão ensanguentadas, tanto assim estão as minhas... O sangue vazando que eu já desisti de tentar conter.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Por que eu me importo se houve algo de fato? Já entendi que minha concepção é diferente da sua, então é possível que tenha havido e os desdobramentos tenham sido diferentes para cada um de nós. Eu aprendi a me separar de mim mesmo para poder analisar imparcialmente algo que é intrínseco a mim, contrariando meus sentimentos. E foi bom. Eu posso entender por entre suas palavras que me magoaram o amor querendo evitar meu sofrimento. Acho que tudo aconteceu tão cedo... Eu não entendi ainda a causa de havermos agarrado para nós a hora errada. Não havia como brotar nada dali, naquela época... E, como tudo o que eu já vivi, eu consegui enterrar, colocando o remorso como lápide, você, por algum tempo.

Eu percebi a fragilidade dessa separação, se ao mero acenar eu já estou profundamente afetado, podando anseios turbulentos e estrondosos, tentando acalmar essa reviravolta colossal que motiva uma orquestra desesperada. Eu tentei e estou tentando, mas é recorrente. Você é uma parte que não consigo ignorar. Eu quero tanto

------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Hoje, novamente, de súbito um frio. mas aplacado com a calma de quem já tem intimidade com o sentimento invisível. Eu não consigo evitar estes caminhos que perpassam minha mente em infinitas idas e vindas. magicamente desenhado para que eu chegue a mesma conclusão de antes. Foi extremamente difícil este mais de um mês que passei em silêncio. Pois toquei o vazio e agora ele me toma como que naturalmente e eu estirado debaixo dos panos que ignoro serem apenas a cobertura de uma vão infinito que tenho fingido haver superado. Na verdade, encarando-o agora de outra maneira.

Eu tenho umas coisas em mim sobre isto tudo, como sempre. Estou em vontade de escrever... Só um pouco decepcionado por perceber-me ainda refém das circunstâncias...
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
E durante o dia, quem me vê, vivendo, nem diria que toda a noite eu choro este vazio.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Refletindo sobre tudo isso...

Esta postagem não chega a ser nada literário, com a licença do uso da palavra para classificar meus outros textos. É que eu sou mais poético quando tento expressar meus sentimentos no cerne, porque acho que o discurso mais prosaico não dá conta. Mas não é esse o caso, o fato é que eu estou muito intrigado como eu não tenho nenhum controle sobre as coisas que acontecem na minha vida. Sempre paro e observo o que aconteceu há alguns dias ou meses ou anos atrás e analiso fase a fase como que a pintar um muro e vejo que uma coisa se encaixou na outra, mas eu não tinha planejado isso. Pode parecer meio estúpido que eu trate esse fato como algo surreal, mas é que isso reforça a minha crença de que eu realmente não estou sozinho e tem alguém me guiando, deixando que eu sofra quando necessário, que eu passe por tribulações quando elas me forem benéficas. Posso falar sobre isso agora mais claramente e sem receio de me expor, porque sei que sou muito enigmático às vezes.

E o propósito de um blog é expor-se, não que eu não o faça, aliás, quase ninguém lê isso aqui mesmo, mas eu consegui sentir algo tão bom e, mesmo eu tentando frear isso, me consome de tal maneira que parece muito especial. Mas a diferença é que não é unilateral. Esse é o ponto no qual eu estava para chegar, é que me acostumei de certa forma a não receber nada, a não exigir nada das pessoas e apenas suprir suas necessidades e, assim, quando sou suprido sem nem ao menos precisar pedir, como devo me sentir? Claro que tenho medo, cautela, receio, ceticismo... Meus velhos amigos... Mas dia a dia eles estão sendo afastados, mesmo que eu os force a ficar, não sei, eles me protegem, sempre me protegeram, mas cobram um preço muito caro, que é o de eu me isolar, ficar paralisado, deitar na minha zona de conforto, abraçar minha solidão. Mas isso não tem sido suficiente, acho que eu mudei de tal forma que meu velho eu não cabe mais em mim, como se ele fosse muito menor do que eu sou agora e preciso de mais, muito mais, dar uma guinada na minha vida e, assim, esses velhos companheiros de quase 3 décadas tornaram-se obsoletos, é que, por costume meu, eles ainda estão se agarrando a mim veementemente.

Pode ser o momento de colocar tudo a prova, de descobrir se toda a teoria converge para esta hora. Parece que confiam que eu esteja pronto e este amor que não dói por nada intrínseco a ele mesmo, apenas por fatores externos, é algo do qual nem me lembrava mais. Estou maduro, estou mais velho, sou um homem agora e não se pode julgar meus sentimentos com base em devaneios adolescentes de um menino cru e totalmente influenciável como eu era da primeira vez. Não desmerecendo meus sentimentos de antigamente, mas faz quase 10 anos e ouso dizer que envelheci de experiência o que há pessoas de mais de 30 anos que não envelheceram ainda. Eu estou pronto para algo sublime, para algo vitalício e impávido, algo que é possível que desabroche em vários ramos e, desses ramos, floresçam almas que eu ainda nem conheço ou me foi dado esquecer. Estou muito emocionado agora e sem a sensação de estar sendo infantilizado e cheio de utopias, porque mantenho os pés no chão. Toda a falsidade que me circundava dissipou-se e eu vi a verdade, não vislumbrada, ela foi vista, sentida, acariciada, beijada, absorvida. Como posso eu haver conjugado tudo em perfeito momento? Não pode ter sido eu.

Então agora eu me sinto mais seguro, sabendo que é um amparo que me resguarda de errar sem rumo. Há um rumo, há um compromisso e um objetivo e parece tudo estar dando tão certo... Pode ser que chegue a hora em que eu tenha que sacrificar de vez as âncoras que me respaldam... Eu já fiz isso uma vez, eu me lembrei agora. Há muito tempo, além da vida humana... Eu fiz isso que parecia uma loucura juvenil e eu sei que fui feliz e quem teria a grandeza de me incentivar? A minha felicidade nas minhas mãos, com os meus pés no chão... Eu morri por ter amado uma vez, isso está gravado em mim. Não deveria eu, então, recusar isso com todas as minhas forças? Eu abraço, ao invés, porque eu palpito de amor, transbordando por todos os meus poros, ansiosos por serem expandidos até que eu possa banhar-me todo em minha essência. Sim, a essência que eu carrego, que é lasca flamejante da origem imaterial de onde fui gerado, essência planetária, cósmica, amor universal.

O Desterro da Covardia

O intento fora grudar ao meu corpo o que contivesse apenas lascas de vida, como uma vacina. Qual não foi minha surpresa ao retesar-me de dor pelo desenvolvimento silencioso dos espinhos da velha besta ilusória, fonte de redobradas expiações, como o assoalho envelhecido ainda roído por cupins apenas cumprindo uma necessidade vital. Não eximindo a vil criatura de seus atos levianos, quando enrosca-se por entre as frestas de seus hospedeiros a retirar-lhes o bálsamo de vida, injetando-o em seu próprio corpo agora já raquítico pela prévia morte - um renascimento custou-lhe esforços magníficos. Jamais hei de poupá-la, porém é-lhe intrínseco o comportamento parasitário e debalde acreditei estar enganado, como se houvesse tudo não passado de confusão mental construída por uma visão deturpada pelos canais prismáticos pelos quais a enxerguei. Mas nada ali de errado atribuir-se-á a mim, posto que da besta parte o acinte enevoado de canduras e dóceis discursos.

Rasga-se minha pele com o avançar dos ferrões, caminhando livremente por meus vasos sanguíneos, costurando-me ao centro nervoso do pária que, aparentemente por escolha própria, abrigo, protegendo o punhal que me dilacera, amando o garrote que lentamente faz-me esvair-me. Todo o antigo conhecimento e perfeita catalogação do espécime agora me soam frívolos, como uma sensação longínqua e infantil. Centrado, agora, em um momento pós-guerra, confio-me plenamente capaz de sensatez incontestável. Debruço-me ao incerto, contemplando minha dor e agonia e pincelando meu futuro de acordo com as exegeses do que ainda não li, vulto sacro que se decalca com a imponência de um destino inexorável barra-me o pensamento racional por mim tão enlevado. Tudo não passa, ao fim, de artimanhas da besta covarde em tornar-me uma marionete de seus caprichos, usando-me como lodo que ingere para satisfazer seu insaciável corpo em regeneração. Ao degolar-me, ante minha súplica por findar o martírio, a via crúcis encerrar-se-ia com meu corpo sendo incorporado ao ser ignóbil, como uma célula desprovida de auto-estima, apenas executando suas funções primordiais apaticamente, ausente de si.

Traçado estava o mesmo caminho de outrora, mesmo previsões de um futuro abjeto passaram-me pela mente... Quando interpelado fui por uma turba de inefáveis experiências, todas concentradas em momentos que, amalgamados, foram capaz de suplantar mais de um ano corrente de tribulações e perfídias. A vibração que elevou-me ao nirvana de mim mesmo alicerçou o tardio achincalho desta besta patética e, em realidade, pobre em seus sortilégios. A cada novo segundo no qual eu respirava profundamente, fui impelido a digerir a realidade deste Houdini encarcerado em seus próprios antagonismos e aviltar toda a constelação de imbricações traumáticas que o assombra. E quando, finalmente, pude rever esse vampiro, tudo o que pude enxergar foi um vácuo em seus olhos, como se a verdade que eles detêm fosse tão tripudiada diariamente que perdeu-se, imiscuída em verdugos emocionais.

Salvo que fui, aportei em mansa baía e dormi, acariciado por um vento lento e frio, os olhos sem o poder de se controlar, forçaram-se a fechar para poupar-me de qualquer evento. Mas nada sucedeu-se. Dormi em seus braços... Ainda não despertei.  
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------

Parece meio óbvio, mas eu escrevi esse texto como uma continuação de um texto que escrevi em Maio do ano passado chamado "Covardia". Eu até achei que houvesse escrito isso um pouco depois de maio, mas enfim, só reforça o que eu já deveria saber desde há muitos meses atrás. Mas foi bom, foi ótimo eu ter enfiado a minha cara em chorume mais uma vez, porque deste ato repugnante e humilhante surgiram oportunidades profundíssimas de reflexão. Eu refleti muito. Ah, acho que isso merece até outra postagem.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma Folha

Há que se respeitar o que não se conhece, por medo ou cautela, o que não se compreende e o que se move de maneira familiarmente estranha, como um tímido mover-se nas profundezas da inconsciência, um mover-se do qual sabe-se a existência, é reconhecido, porém não se pode precisar, explicar, desenhar ou expressar. Ele se basta, essa coisa alguma que é tudo. E apenas por sinalizar sua existência, projeta profusões de sensações tão confusas à mente humana, mas tão cheias de vida que escapam à delimitações, às noções maniqueístas, à teoremas tão logicamente construídos.

Sou fascinado pelo que não se sustenta sobre dóricas colunas, preferindo os intangíveis caminhos, ausentes do que lhes guie que não o sentimento atemporal e auto-suficiente. Quando pude, finalmente, ainda que brevemente, descansar desta peregrinação infinda, refestelei-me sobre minha calma e eternidade condensada... Acordando de um salto, pus-me a par de mim mais uma vez, de volta que estava de uma viagem longa, da duração de vidas celestes - a convenção a qual chamamos "tempo" expressa-se por nossos parâmetros reduzidos, que, uma vez desabrochados, são relativizados e contestados ante a fatos que são gerados pelas coincidências do acaso. O ser humano sempre a ser posto em contradição pela magnitude do mero fato de existir, banalizado. - E de volta que estava, olhando para trás, vi dias e mais dias, semanas, anos... Não sei mais, a sensação reside em mim, jamais esquecida, sem necessidade de ser esmiuçada, para mim, sem sentido para mais quem olhe, a não ser que fossem eu. E o amor pela sustentação sólida e robusta ganha seu prestígio com o cronológico pulsar do relógio concreto e tangível para ser apreendido pela consciência física, que jamais se entende totalmente com o indizível.

É canônica a consequência de uma experimentação inclassificável, porém tal algoz cria-se pela ansiedade de pormos tudo em seu lugar, mas, uma vez que comparemos instantes com a eternidade, pode-se crer clara a ausência de distâncias e o alcance do que socialmente nos foi ensinado que se deve abafar, que a vida deva seguir uma ordem cronologicamente e milimetricamente pré-definida. Nada poderia escapar ao determinado e seria nosso próprio erro e, por conseguinte, dever restaurar a ordem, o equilíbrio, o inteligível. Eu sempre traio a norma, empiricamente atesto a falsidade dos constituintes desta base piramidal que se chama ordem "natural" das coisas... Em todo o meu corpo, espalham-se células nucleadas pulsantes de algo mais do que organelas, algo que as alimenta de ímpeto de viver, de vomitar os vermes tóxicos que me são empurrados diariamente quando sou obrigado a justificar-me o tempo inteiro e proteger-me o tempo inteiro. Justificar meus sentimentos e impulsos... Proteger-me do que possa me magoar e machucar...

Mas a dor tem sido algo além de carrasco, e, caso ela seja presente, eu ainda não estou pronto. E sempre que ela se fizer, ela me avisa que não estou pronto, que ainda não é a hora, que estou no caminho, que estou aprendendo, que estou sendo eu mesmo, porque sou feito de dor, de amor, de paixão por estar de pé, de depressão crônica e frustração, de resiliência... pelas frestas de uma promessa feita a mim, eu entendi o propósito, ainda que não desdobrado, porém contido. Ele me diz algo, como um feixe de luz a ser decifrado... O processo de sentir-se vivo apesar de tudo.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Mais Uma Vez


A consciência invisível de um vácuo interior,
confundida com instinto, justifica o transfigurar-se
cada vez que se está em busca de um torpor
para os sentidos, como um bálsamo que lhe acalmasse

Se não fosse pela efemeridade,
poderia essa ser a chave da felicidade
contudo parecem desconhecer a fugacidade
inerente a relações de não alicerçada intimidade

Copiosamente perscrutei mentes e comportamentos
debalde almejando equacionar a raiz dos tormentos
que vêm paralisando o encaixar-me, reduto pacífico,
nada que meramente uma projeção do inefável idílico

Ante a constatação de ser um organismo,
pertencente a meus próprios organizadores,
a dissipar-me o pessimismo, o materialismo...
sobrava em mim a necessidade de mediadores.

O esforço agora faz-se na direção
de remodular as mais íntimas convicções
e descobrir impensáveis dilacerações,
saciar minha ânsia cromossomática de união.

Pelo frio, ao meu redor, gerado por você
minha busca é alimentada e impulsionada,
um elemento crucial para eu não me perder...
Pois fosse a mim dada uma felicidade beatificada,
perder-me-ia, inebriado em ilusão,
a sua imagem, ainda cultivada, da perfeição.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------
Talvez eu deva esperar fisicamente o recomeço, marcado, assim, pelo tempo cronológico. É que me sinto mais confortável no final do que no início, portanto, às vezes, desejo que não passe. Mas estou confiante. Não naquilo a que o poema se refere, mas em algo novo. Eu tentei, na última fração deste ano, uma coisa boa, que eu consegui cavar e achar. Mas, ao virar o dia 31, eu não mais olharei para trás. Demarcações feitas em última hora... Eu estou entendendo, então, sobre o que se trata. Trata-se de animar-se com o totalmente novo. E eu estou totalmente empolgado. Pois pode ser que seja isso: algo infinitamente novo. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Às portas

Tenho tentado evitar um confronto mais explícito, registrado, pretensamente organizado. Mas não se trata de drenar-me mais, como antes era. O que eu pretendia agora era apenas colocar, uma por cima da outra, as imagens que as letras são capazes de construir magicamente e tentar entender como me sinto neste momento que começa a se formar, ainda tímido, ainda experimental.
Desde que me dispus a sentir novamente foi eu represei, ao velho costume, gestos significativos e marcas de algo menos racional, embora haver seguido a essência emotiva da qual sou fruto me fizera alimentar os questionamentos e desilusões, as tomadas de decisão que falharam na hora de cumprir com meu objetivo primordial que era o compromisso que tenho comigo mesmo. E agora, a intenção é não mover demais, refletindo sobre algo que não existe e está além de mim, como eu quero construir este nada que tenho nas mãos?
Foi quando eu tive uma lembrança, filtrando o passado eu pude resolver uma peça de minha mente, um entrave. Parece que o caminho que se desenha estava em mim o tempo inteiro, pois tudo foi desenhado com  minhas próprias mãos. Não sinto mais como se dependesse de mim. Pelo menos minha mente me traiu em tudo o que imaginei até agora e sinto um alívio por isso. Eu estou esperando pelo momento do "sou feliz". Quando poderei ser, realmente, fora de mim, meio suspenso, meio aéreo, mas minhas ações espelhando meus sentimentos mais sublimes, não mais censurados. Estou, acho, mais perto de me liberar para a felicidade. Eu a mantive longe todo este tempo, odiando-a por ela não ser minha porque eu não a abraçava. Ela é livre em si mesmo, ela existe além de nós e do que nos circunda.

E quando eu me dou por mim, sempre estou pensando em você. Ignorando que você sempre fez parte de tudo isso, ignorando que não há outro destino pra nós que não estarmos juntos, eu rechaço isso. Que medo enorme me faz não ter você em vez de perder você? Que medo me consome de que você desapareça, quando eu mesmo que desapareço da sua vida, para evitar que eu sofra, eu sofro ainda mais desistindo de você antes que você me dê uma chance de ter a chance de chegar a você. Mas toda a minha neurose é tão real e pesada no que tem a ver com você, porque eu amo tanto... Isso é o que eu jamais senti e sempre esperei sentir, mas sempre quis sentir. É assim mesmo, mais ou menos como eu havia suposto que seria. Mas quando de fato será? Eu preciso esperar que aconteça, eu sou tão egoísta. Em meu egoísmo, uma pessoa difícil, complexa, sua doçura tem meu feito ser um pouco mais feliz e eu não sinto que mereça alguém tão maravilhoso, porém, eu, não vou quebrar você ao tocar-lhe. Parece tanto que você é tão quebrável...